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Não Matarás: o que o Espiritismo ensina sobre a valorização da vida no Setembro Amarelo

                          

“Não matarás.” O mandamento de Jesus pode parecer, à primeira vista, uma determinação simples: não tirar a vida de outra pessoa. Mas, quando examinado à luz do Espiritismo, ele revela uma abrangência muito maior. A vida não é uma propriedade humana, nem um acontecimento casual. É uma concessão divina, uma oportunidade de crescimento, reparação e aprendizado.

Respeitar a vida, portanto, significa muito mais do que não cometer um homicídio. Significa reconhecer o valor da existência desde sua formação, preservar a própria vida, respeitar a vida do outro e compreender que também podemos destruir alguém sem jamais tocar em seu corpo.

É nesse sentido que o “Não matarás” se transforma em um verdadeiro compromisso com a valorização da vida.

Homicídio: quando o homem se coloca no lugar de Deus

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta diretamente sobre o homicídio. Nas questões 746 a 748, os Espíritos esclarecem que tirar a vida de alguém constitui uma transgressão às leis divinas. O homem não recebeu de Deus o direito de decidir arbitrariamente quem deve viver ou morrer.

A questão não se resume ao ato físico. Existe, antes dele, uma decisão moral: colocar os próprios interesses, a raiva, o ódio, a vingança ou qualquer outra paixão acima do direito fundamental à existência.

Isso não significa ignorar situações extremas. A Doutrina Espírita considera a legítima defesa, mas é preciso compreender seu verdadeiro sentido: defender-se de uma agressão não equivale a possuir licença para matar. A intenção de preservar a própria vida ou a de terceiros é diferente da intenção deliberada de eliminar alguém.

Há ainda uma questão fundamental: o livre-arbítrio.

Na questão 861, O Livro dos Espíritos esclarece que aquele que comete um crime não estava predestinado a praticá-lo. Não veio à Terra com a obrigação de se tornar criminoso. As circunstâncias podem fazer parte de suas provas, mas a decisão moral permanece sob sua responsabilidade.

Isso é importante porque impede duas conclusões equivocadas: nem o criminoso pode atribuir seu ato a um destino inevitável, nem podemos imaginar que Deus tenha criado alguém destinado necessariamente ao mal. O indivíduo pode escolher. E justamente porque pode escolher, responde pelas escolhas que faz.

Pena de morte: eliminar o criminoso não elimina o crime

Se a vida pertence a Deus, a pena de morte também encontra uma barreira moral no princípio “Não matarás”.

Nas questões 760 a 765 de O Livro dos Espíritos, a Doutrina Espírita apresenta uma posição clara contra a pena de morte. A sociedade tem o direito de se proteger, mas proteção não significa vingança. Justiça não deve ser confundida com reprodução da violência.

O criminoso precisa ser impedido de continuar prejudicando outras pessoas, mas isso não significa que sua existência deva ser eliminada. Afinal, a morte do corpo não representa a morte do espírito nem, necessariamente, o fim de suas tendências e conflitos.

Em Cartas e Crônicas, pelo Espírito Irmão X, psicografado por Chico Xavier, encontramos uma reflexão particularmente séria sobre as consequências da execução. A eliminação física do delinquente pode representar apenas uma mudança de plano para alguém que permanece espiritualmente revoltado, agressivo e desequilibrado.

A execução, portanto, pode não resolver o problema moral que originou o crime. O espírito continuará existindo e terá, diante de si, a necessidade de enfrentar aquilo que ainda não transformou.

A verdadeira justiça, sob essa perspectiva, não é aquela que simplesmente elimina o culpado, mas aquela que protege a sociedade e oferece ao indivíduo a possibilidade de regeneração.

Aborto: a vida que começa antes do nascimento

A valorização da vida, para o Espiritismo, alcança também a existência intrauterina.

Em O Livro dos Espíritos, as questões 357 a 360 tratam diretamente do aborto. Na questão 357, Kardec pergunta quais são as consequências do aborto para o espírito, recebendo como resposta que se trata de uma existência que deverá ser recomeçada. Na questão 358, a provocação do aborto é apresentada como transgressão da lei divina quando impede a alma de passar pelas provas para as quais aquele corpo serviria de instrumento.

Para o pensamento espírita, portanto, a vida corporal não começa simplesmente no momento do nascimento. O corpo em formação está relacionado a um processo de reencarnação e representa uma oportunidade para um espírito.

Isso confere ao período gestacional uma dimensão espiritual que não pode ser ignorada.

A questão 359 apresenta, contudo, uma situação extrema: quando o nascimento coloca em perigo a vida da mãe, os Espíritos indicam que é preferível preservar aquele que já existe, isto é, a mãe. A questão 360 reforça a necessidade de respeito diante dos processos da criação divina, lembrando que não devemos tratar levianamente aquilo que envolve a vida.

O tema exige, portanto, responsabilidade e seriedade. Não se trata de transformar uma questão complexa em julgamento sobre pessoas, mas de compreender o princípio doutrinário: a vida é sagrada e deve ser protegida sempre que possível.

Suicídio: quando a dor faz a vida parecer insuportável

Talvez nenhuma questão dentro do “Não matarás” exija tanto cuidado quanto o suicídio.

Não podemos falar sobre alguém que pensa em tirar a própria vida apenas com argumentos frios ou condenações. Antes de qualquer reflexão doutrinária, existe uma pessoa sofrendo. Existe uma dor que, naquele momento, pode parecer maior do que a capacidade de suportá-la.

É justamente por isso que o Espiritismo procura oferecer uma perspectiva diferente sobre a existência.

No capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no item 14, Kardec relaciona a calma, a resignação e a confiança no futuro a uma maior capacidade de enfrentar as vicissitudes da vida. O texto aborda também a “loucura” como consequência de abalos provocados por situações que a pessoa não consegue suportar, dentro da linguagem e do contexto da obra.

A mensagem central é poderosa: a maneira como enxergamos a vida interfere profundamente na maneira como enfrentamos a dor.

O Espiritismo não ensina que devemos gostar do sofrimento, nem que uma doença, uma perda ou uma dificuldade devam ser aceitas passivamente. Ensina-nos a procurar compreender o sentido da existência para além do momento presente.

Uma doença pode exigir tratamento médico. Uma depressão pode exigir acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Uma crise pode exigir intervenção imediata. A fé não substitui esses cuidados. Mas a fé pode oferecer algo fundamental: a certeza de que a dor não é toda a existência.

Em O Livro dos Espíritos, a questão 943 relaciona determinados desgostos da vida a fatores como ociosidade, falta de fé e saciedade, mostrando que o vazio existencial também pode produzir sofrimento. Na questão 944, a resposta é direta ao afirmar que o homem não tem o direito de dispor da própria vida, por representar isso uma transgressão às leis de Deus. Já a questão 957 aborda as consequências espirituais do suicídio.

Há, portanto, uma ideia que precisa ser profundamente compreendida: uma crise é passageira; a vida é muito maior do que a crise que estamos atravessando.

Quando uma pessoa está sofrendo, aquilo que hoje parece um fim pode ser apenas um momento que ainda não revelou suas possibilidades de transformação. Uma enfermidade pode despertar para cuidados que antes eram negligenciados. Uma perda pode modificar valores. Uma experiência dolorosa pode despertar forças que permaneciam adormecidas.

Isso não significa afirmar que Deus deseja o sofrimento. Significa compreender que, diante das dificuldades que a vida apresenta, Deus pode permitir que de um aparente mal surja um bem.

É nesse sentido que a doutrina nos convida a desenvolver confiança. Quando Deus permite uma experiência, não significa abandono. A criatura pode não compreender imediatamente o caminho, mas não está fora das possibilidades de crescimento.

SE A DOR ESTÁ GRANDE DEMAIS, NÃO ENFRENTE SOZINHO.

Este é um ponto que precisa ultrapassar qualquer estudo religioso: pedir ajuda também é uma forma de valorizar a vida.

Se você está passando por um momento difícil, pensando em desistir, ou percebe que alguém próximo está sofrendo, converse, procure ajuda e permaneça perto dessa pessoa. Não minimize sua dor e não diga simplesmente que ela precisa “ter fé”. Escutar sem julgamento pode ser o primeiro passo para impedir uma tragédia.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, além de atendimento por meio de seu site.

O Setembro Amarelo amplia, todos os anos, as ações de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a valorização da vida, incentivando justamente aquilo que tantas vezes falta nos momentos de sofrimento: informação, escuta, acolhimento e disposição para procurar ajuda.

Falar sobre suicídio não incentiva o suicídio. Falar pode salvar uma vida.

E uma vida que hoje parece sem saída ainda pode encontrar amanhã uma razão para continuar.

As mortes que não aparecem nos registros

Existe, porém, uma última dimensão do “Não matarás” que merece nossa atenção.

Nem toda morte acontece quando o coração deixa de bater.

Há pessoas que jamais tirariam a vida física de alguém, mas não hesitam em matar reputações, destruir relacionamentos, sufocar esperanças e ferir profundamente a alma do próximo.

Pode-se matar moralmente por meio da calúnia. Pode-se matar a confiança com a traição. Pode-se matar a harmonia de uma família pela intriga. Pode-se matar uma amizade pela maledicência. Pode-se matar a fé que começava a nascer em alguém com palavras de desprezo. Pode-se matar a esperança de uma pessoa aflita quando, em vez de ampará-la, escolhemos humilhá-la.

E talvez esse seja um dos aspectos mais difíceis do ensinamento de Jesus: não basta não tirar a vida de ninguém; é necessário aprender a não destruir a vida que existe dentro de ninguém.

Uma palavra pode devolver coragem ou aprofundar uma ferida. Uma atitude pode levantar alguém ou fazê-lo acreditar que não tem valor. Uma mentira pode destruir em poucos minutos aquilo que outra pessoa levou anos para construir.

Por isso, o “Não matarás” também pede vigilância sobre a língua, os pensamentos, as escolhas e a maneira como tratamos aqueles que convivem conosco.

O verdadeiro sentido de “Não matarás”

Quando Jesus ensinou “Não matarás”, não estava apenas estabelecendo um limite para a violência física. Seu ensinamento alcança a forma como compreendemos a própria existência e a responsabilidade que temos diante da vida.

Para o Espiritismo, viver é uma oportunidade concedida por Deus. A existência corporal possui finalidade, mesmo quando não conseguimos compreendê-la imediatamente. Por isso, ninguém deve tratar a própria vida ou a vida de outra pessoa como algo descartável, interrompendo-a por impulso, vingança, desespero ou conveniência.

Esse princípio também nos chama a uma responsabilidade que vai além das grandes decisões. A vida do outro também precisa ser respeitada em sua dignidade, em sua esperança, em sua fé e em seus vínculos. É possível não matar fisicamente e, ainda assim, provocar sofrimentos profundos por meio da calúnia, da crueldade, da humilhação, da indiferença ou da destruição deliberada de uma reputação.

Há, portanto, uma distância enorme entre simplesmente não matar e verdadeiramente respeitar a vida.

Respeitar a vida é compreender que cada existência tem um propósito que ultrapassa aquilo que conseguimos enxergar. É reconhecer que o criminoso continua sendo um espírito em processo de evolução; que aquele que sofre não deve ser abandonado à própria dor; que a criança ainda no ventre representa uma existência que merece consideração; que a justiça não precisa recorrer à morte; e que nossas palavras podem tanto amparar quanto ferir profundamente.

A proposta de Jesus é mais exigente do que simplesmente evitar o homicídio. Ela nos convida a abandonar a cultura da destruição e a desenvolver uma postura de proteção, misericórdia e responsabilidade diante da vida.

Porque, no fundo, “Não matarás” é também um chamado para não desistirmos uns dos outros.

Aquele que compreende a imortalidade da alma sabe que nenhuma existência é inútil e que nenhuma pessoa está definitivamente perdida. Todos estamos diante da mesma lei de evolução, aprendendo, reparando, recomeçando e avançando.

É por isso que a valorização da vida não pode ser apenas um discurso para determinadas épocas do ano. Ela precisa fazer parte da maneira como olhamos para o sofrimento, para os nossos conflitos, para aqueles que erram e, principalmente, para aqueles que precisam de nós.

O mandamento permanece simples em suas palavras, mas profundo em suas consequências: a vida pertence a Deus. A nós cabe respeitá-la, protegê-la e, sempre que possível, ajudá-la a florescer.

Leia também: Valorização e Sustentação da Vida

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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