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Maledicência: os murmuradores da vida alheia

                        

A meledicência é uma imperfeição da alma.

Falar da vida alheia parece, muitas vezes, um hábito inofensivo. Um comentário aqui, uma crítica ali, uma conversa sobre o comportamento de alguém que nem sequer está presente para se explicar. Mas, quando nos acostumamos a procurar os defeitos do próximo e a divulgá-los, transformamos a palavra em instrumento de julgamento e nos afastamos dos ensinamentos de Jesus.

A pessoa maledicente é maldosa.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10, itens 9 e 11, encontramos importantes reflexões sobre o argueiro e a trave no olho e sobre a advertência de Jesus: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. O Mestre também nos convida a refletir sobre a própria conduta ao afirmar que aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra.

A maledicência é justamente isso: esmiuçar a vida alheia, destacando os erros, interpretando as atitudes pelo lado mais desfavorável e fazendo circular comentários que expõem as imperfeições dos outros. Não se trata apenas de dizer uma mentira. Mesmo quando um fato é verdadeiro, divulgá-lo com a intenção de diminuir alguém, alimentar críticas ou satisfazer a curiosidade pode revelar a maldade que ainda carregamos no coração.

Aquele que sente prazer em expor as falhas do próximo talvez ainda não tenha percebido o quanto precisa trabalhar sobre si mesmo. Por isso, a advertência de Jesus sobre a medida com que julgamos é tão significativa: quem se compraz em investigar e divulgar o mal alheio demonstra que ainda precisa combater em si as mesmas tendências que condena.

Por que enxergamos tão facilmente os defeitos dos outros, mas temos tanta dificuldade em reconhecer os nossos?

O orgulho, muitas vezes disfarçado de amor-próprio, funciona como uma lente que amplia as imperfeições alheias e encobre as nossas. Encontramos justificativas para nossas atitudes, mas nem sempre concedemos ao próximo o mesmo direito de estar aprendendo, de se enganar e de corrigir os próprios passos.

A Doutrina Espírita nos convida a compreender que cada pessoa age conforme sua inteligência, seu grau de adiantamento espiritual e as circunstâncias em que se encontra. Isso não significa aprovar o erro ou ignorar suas consequências, mas reconhecer que nem todos possuem a mesma compreensão sobre o bem e o mal. Muitas vezes, quem erra ainda não percebe a extensão de suas atitudes. Com o amadurecimento e a boa vontade, poderá reconhecer o equívoco e buscar repará-lo.

Quando, porém, transformamos esse erro em assunto para conversas maledicentes, podemos agravar o sofrimento de quem já enfrenta as consequências da própria conduta. Em vez de favorecer a reflexão e a reparação, contribuímos para a exposição, a humilhação e o afastamento. A palavra, que poderia acolher e esclarecer, passa a ferir.

É por isso que a humildade representa um caminho tão importante para o progresso espiritual. Enquanto o orgulho nos leva a vigiar o comportamento alheio, a humildade nos ensina a examinar a própria consciência. Em vez de gastar tempo enumerando os defeitos dos outros, podemos perguntar a nós mesmos: quais imperfeições ainda alimento? Que hábitos preciso abandonar? Em que situações minha conduta contradiz aquilo que digo acreditar?

Esse exercício de autoconhecimento é indispensável à reforma íntima. Não basta conhecer os ensinamentos de Jesus ou reconhecer os erros do mundo. É preciso identificar nossas próprias tendências negativas e trabalhar, diariamente, para transformá-las. A crítica que dirigimos aos outros só tem verdadeiro valor educativo quando também somos capazes de aplicar a nós mesmos a exigência de mudança.

Isso não significa, entretanto, que devamos rejeitar toda observação sobre nossa conduta. Existem amigos sinceros que, por desejarem nosso bem, apontam atitudes que precisamos corrigir. Quando a misericórdia divina coloca alguém assim em nosso caminho, não permitamos que o amor-próprio nos torne surdos. Ouvir uma advertência honesta exige humildade, mas pode representar uma oportunidade preciosa de crescimento.

Antes de pretendermos corrigir o próximo, precisamos avaliar se estamos fazendo o trabalho de correção em nós mesmos. Como oferecer equilíbrio se ainda nos deixamos dominar pelas próprias paixões? Como ensinar a tolerância se cultivamos a intolerância? Como falar de caridade se usamos nossas palavras para ferir?

Não podemos oferecer aquilo que ainda não conquistamos plenamente. Podemos, sim, ajudar enquanto aprendemos, desde que o façamos com sinceridade, respeito e consciência das próprias limitações. Auxiliar não é colocar-se acima de alguém, mas caminhar ao seu lado, oferecendo o que temos de melhor e reconhecendo que também precisamos melhorar.

A maledicência perde espaço quando aprendemos a substituir a curiosidade sobre os erros alheios pelo compromisso com a nossa própria transformação. Isso não exige silêncio diante de toda situação injusta, mas discernimento para distinguir a denúncia necessária da crítica maldosa, a orientação fraterna da exposição desnecessária e a preocupação sincera com o próximo do simples prazer de falar sobre ele.

Jesus não nos convidou a ignorar o mal, mas a começar por nós mesmos a tarefa de combatê-lo.

Antes de comentar a queda de alguém, examinemos nossos próprios passos. Antes de apontar uma imperfeição, perguntemos o que ainda precisamos corrigir. E, antes de fazer uma palavra circular, avaliemos se ela esclarece, ampara e constrói ou se apenas espalha o julgamento.

A verdadeira renovação espiritual começa quando deixamos de usar os defeitos dos outros como justificativa para esquecer os nossos. Afinal, a melhor maneira de contribuir para a melhoria do mundo não é falar mais sobre o que os outros precisam mudar, mas trabalhar com coragem e humildade naquilo que precisamos transformar em nós mesmos.

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Na vida cotidiana, esse aprendizado exige equilíbrio. Como orientar um filho, um sobrinho ou alguém querido que insiste em atitudes prejudiciais, sem cair na crítica, na imposição ou na maledicência? O primeiro passo é o exemplo, mas também precisamos saber conversar, ouvir sem preconceitos e falar com sinceridade, escolhendo o momento adequado e evitando expor a pessoa desnecessariamente. Não precisamos ser moralmente perfeitos para ajudar alguém; precisamos, sim, reconhecer nossas limitações e não exigir do outro aquilo que ainda estamos aprendendo a conquistar. A orientação fraterna não consiste em controlar escolhas, mas em esclarecer caminhos, alertar sobre consequências e oferecer apoio para que o outro possa refletir e decidir por si mesmo.

Ajudar também é saber até onde podemos ir. Podemos aconselhar, acolher e permanecer disponíveis, mas não podemos viver pelo outro nem impor-lhe o amadurecimento. Respeitar o livre-arbítrio significa compreender que cada pessoa tem seu próprio tempo de aprendizado e que, mesmo quando nossas intenções são boas, a insistência excessiva pode afastar justamente quem desejamos ajudar. Façamos, portanto, a nossa parte com amor, firmeza e coerência, confiando que a palavra sincera, acompanhada pelo exemplo, poderá encontrar seu momento de florescer. Afinal, orientar não é julgar quem ainda erra, mas oferecer, com humildade, o auxílio que também gostaríamos de receber quando fossem nossas as dificuldades.

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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