Por que nascemos nesta família? Planejamento reencarnatório e a preparação do lar para receber um Espírito
"Por que nasci justamente nesta família?" Essa é uma das perguntas mais profundas que o ser humano pode fazer. Muitos imaginam que o nascimento seja resultado apenas das circunstâncias biológicas ou do acaso. Entretanto, a Doutrina Espírita ensina que nenhuma reencarnação acontece sem propósito. Antes de voltar à Terra, cada Espírito participa de um cuidadoso planejamento, no qual são consideradas suas necessidades de aprendizado, seus compromissos do passado e as oportunidades de progresso que encontrará na nova existência.
No primeiro capítulo de O Evangelho dos Humildes, Eliseu Rigonatti utiliza o Evangelho de Mateus (1:1-25) para demonstrar que a própria vinda de Jesus ao mundo foi precedida por uma preparação espiritual extraordinária. Mais do que narrar uma genealogia ou o nascimento do Cristo, Mateus apresenta, em linguagem simbólica, a organização providencial que antecedeu sua encarnação. Jesus, Espírito de pureza incomparável, diretamente inspirado pelo Altíssimo, veio revelar aos homens o Código Divino do Amor. Uma missão dessa grandeza exigia um ambiente moral compatível com sua elevação espiritual.
Segundo Rigonatti, Maria e José eram Espíritos altamente evoluídos, chamados de Espíritos virginais, isto é, Espíritos que, após inúmeras reencarnações e intenso trabalho de aperfeiçoamento, já haviam superado grande parte das imperfeições da matéria. Ainda não pertenciam às esferas dos Espíritos perfeitos, mas possuíam a pureza necessária para acolher um missionário da estatura espiritual de Jesus.
O autor esclarece que Deus jamais rompe as próprias leis da natureza. A encarnação do Cristo ocorreu pelos mesmos mecanismos biológicos que regem toda vida humana. Jesus precisou do concurso amoroso de Maria e José, da dedicação de seus futuros pais e de um ambiente doméstico impregnado de oração, equilíbrio, pureza de costumes e fidelidade às Leis Divinas. O diferencial daquela família não estava em privilégios sobrenaturais, mas na qualidade moral de seus integrantes e na sintonia espiritual que cultivavam.
Esse ensinamento não se restringe ao nascimento de Jesus. Ele revela um princípio universal da reencarnação: todo Espírito necessita de um ambiente favorável ao cumprimento de sua programação reencarnatória.
Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec explica que a reencarnação não é um acontecimento improvisado. Antes do renascimento, o Espírito, de acordo com seu grau evolutivo, participa da escolha das provas que enfrentará, das oportunidades educativas de que necessitará e, muitas vezes, da família em que reencarnará. Nas questões 258 a 273, os Espíritos ensinam que essa escolha visa sempre ao progresso moral, nunca ao sofrimento gratuito. Sob a orientação dos benfeitores espirituais, são planejadas as circunstâncias mais adequadas para que antigos débitos sejam reparados, virtudes sejam desenvolvidas e novos compromissos possam ser assumidos.
Essa realidade é retratada com riqueza de detalhes por André Luiz, em Missionários da Luz, ao descrever o trabalho realizado pelas equipes espirituais na preparação de uma reencarnação. Muito antes da concepção física, o Espírito reencarnante aproxima-se gradualmente dos futuros pais, estabelece laços fluídicos e recebe assistência constante dos benfeitores responsáveis pela tarefa. Paralelamente, pai e mãe também são intuitivamente inspirados, convidados à renovação moral e preparados para a responsabilidade que assumirão. A maternidade e a paternidade, portanto, não representam apenas acontecimentos biológicos, mas verdadeiras missões espirituais.
Essa compreensão nos conduz naturalmente à pergunta central: por que nascemos exatamente nesta família?
O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XIV, item 8, responde que os laços do sangue não criam os Espíritos. "O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito." Os pais oferecem o corpo físico, porém o Espírito já existia muito antes da concepção. Assim, a família terrestre constitui um reencontro de almas que trazem uma longa história construída ao longo de diversas existências.
Na maioria das vezes, reencarnam juntos Espíritos simpáticos, unidos por antigas amizades e afeições. Contudo, a Providência Divina também reúne sob o mesmo teto antigos adversários, desafetos e devedores recíprocos, não como castigo, mas como oportunidade de reconciliação. Quantas vezes um filho difícil representa um antigo inimigo necessitado de amor? Quantas vezes pais exigentes, irmãos incompatíveis ou cônjuges em constante conflito são Espíritos que, em outras existências, romperam laços que agora precisam reconstruir?
Os verdadeiros vínculos familiares não são os da consanguinidade, mas os da afinidade espiritual. Existem famílias formadas pelo sangue e famílias constituídas pelo amor. Os laços biológicos são transitórios; os espirituais permanecem antes, durante e depois das sucessivas reencarnações.
Essa ideia é ampliada por Emmanuel ao distinguir parentela e família. A parentela representa o conjunto de relações biológicas próprias da existência atual. Já a verdadeira família é formada pelos Espíritos que aprendem a amar-se verdadeiramente. A parentela funciona como oficina de aperfeiçoamento; a família espiritual é a conquista definitiva do amor. É justamente dentro do lar que antigos ressentimentos podem transformar-se em fraternidade, e relações marcadas pelo egoísmo podem converter-se em vínculos eternos.
Na obra "Família" de Chico Xavier, Emmanuel afirma que o instituto doméstico constitui uma organização de origem divina, destinada à execução dos programas reencarnatórios elaborados pelo Mundo Espiritual. Nele reencontram-se amigos, antigos desafetos, credores e devedores, todos chamados ao exercício do perdão, da compreensão e da caridade. O lar torna-se, assim, a primeira escola da alma e um dos mais importantes instrumentos de regeneração moral.
Jamais devemos esquecer da preparação do ambiente familiar para a recepção dos Espíritos que se encarnam na Terra. Um lar onde predominam a oração, o Evangelho, o respeito mútuo, a honestidade, a prática da caridade e a harmonia conjugal facilita a aproximação de Espíritos mais elevados e oferece aos Espíritos ainda imperfeitos recursos valiosos para vencer antigas tendências inferiores.
Mesmo quando um Espírito traz inclinações difíceis, o ambiente moralmente saudável funciona como verdadeiro tratamento educativo. Os bons exemplos fortalecem as resoluções assumidas antes da reencarnação, elevam o padrão vibratório da criança e favorecem seu desenvolvimento intelectual e moral. Em sentido oposto, lares marcados pela violência, pelos vícios, pelas desavenças constantes e pela ausência de valores espirituais criam condições propícias para que antigas imperfeições encontrem terreno favorável ao seu florescimento.
Isso não significa que os pais sejam responsáveis por todas as escolhas futuras dos filhos, pois cada Espírito conserva seu livre-arbítrio. Significa, porém, que a atmosfera espiritual do lar exerce profunda influência sobre o processo educativo da alma reencarnante. O exemplo diário, a vivência do Evangelho e o amor praticado silenciosamente constituem os maiores recursos de que os pais dispõem para colaborar com o planejamento estabelecido antes do nascimento.
À luz da Doutrina Espírita, compreendemos, portanto, que ninguém nasce por acaso nesta ou naquela família. Cada reencontro é resultado da perfeita combinação entre justiça e misericórdia divina. Se hoje convivemos com pessoas que nos compreendem e amam, provavelmente estamos reencontrando antigos companheiros de caminhada. Se, ao contrário, enfrentamos dificuldades familiares, talvez estejamos diante da preciosa oportunidade de transformar antigos desafetos em irmãos de coração.
Assim como Maria e José prepararam seu lar para receber Jesus, cada família é convidada a transformar sua casa em um ambiente de paz, respeito, oração e fraternidade. Não sabemos qual Espírito Deus confiará aos nossos cuidados, mas sabemos que toda criança chega trazendo uma história iniciada muito antes do berço. Preparar o lar é, portanto, colaborar conscientemente com os desígnios da Providência, oferecendo ao reencarnante as melhores condições para cumprir sua missão e, ao mesmo tempo, permitindo que todos os membros da família avancem juntos na grande jornada de aperfeiçoamento espiritual.
Por Alexandre Cunha - O Homem No Mundo



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