O Homem e o Tempo: a encarnação como oportunidade sagrada à luz do Espiritismo
Todos sentimos o tempo. Falamos dele todos os dias: “não tenho tempo”, “o tempo passou rápido”, “perdi tempo”, “chegou meu tempo”. Mas raramente perguntamos, com profundidade: o que é o tempo para o Espírito imortal? Será apenas a sucessão dos dias? Um relógio que nos envelhece? Uma força que nos consome? Ou seria, como sugere a visão espírita, um instrumento divino de educação da alma?
Na bela psicografia de Chico Xavier, pelo Espírito Antero de Quental, no livro Vozes do Grande Além, essa pergunta recebe resposta sublime. O homem, aflito diante das perdas e das rugas da experiência terrestre, acusa o tempo como inimigo. E então o próprio Tempo responde:
Disse o homem ao tempo:
“Ó gênio triste! onde a tua caverna horrenda e escura?
por que trazes velhice e desventura
à minha carne que te não resiste?
Abomino-te a clava estranha e dura
que dilacera tudo quanto existe!
Por que razão me segues, lança em riste,
estendendo-me as noites de amargura?
Por que fazes o riso envolto em pranto
e derramas o fel do desencanto
no doce vinho da felicidade?
Quem és tu? Monstro ou Deus, arcanjo ou fera?
Onde o ninho de sombra que te espera
nos remotos confins da Eternidade?”
Mas o Tempo exclamou:
“Ergue-te e lida!...
Sou o pajem divino que te exorta
a seguir para os Céus, de porta em porta,
amparando-te os passos na subida...Eras apenas larva indefinida
quando arranquei-te à treva fria e morta.
Desde então, sou a luz que te transporta,
de forma em forma, para a grande vida.Dou-te alegria e dor, miséria e glória,
para que guardes, puro, na memória,
o amor de Deus que, em tudo, anda disperso...Louva o trabalho que te imponho aos dias.
Sem meus braços, irmão, não passarias
de um verme preso às furnas do Universo.”
Que extraordinária inversão de perspectiva.
O tempo, que supúnhamos carrasco, apresenta-se como educador.
Não verdugo — mestre. Não destruidor — escultor. Não inimigo — servidor de Deus.
O Espiritismo nos ensina que a encarnação não é passeio. Não estamos aqui por acaso, nem lançados ao mundo sem propósito. Alguém nos enviou. Fomos reconduzidos à existência física por misericórdia.
Benfeitores espirituais trabalharam para nosso retorno. Planejaram reencontros. Prepararam provas. Sustentaram oportunidades. Nada disso para mero desfrute dos sentidos, mas para evolução.
Jesus advertiu: “Convém fazer as obras daquele que me enviou enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.”
Enquanto é dia. Enquanto há corpo. Enquanto há escolha. Enquanto há tempo. Porque chega a noite.
Chega o momento em que se ouvirá, como na parábola: “Louco, esta noite pedirão a tua alma.”
E então? Que teremos feito do patrimônio dos dias?
Quanto tempo gastamos “matando o tempo”, sem perceber que, quando se mata o tempo, prepara-se a morte interior?
Há vidas inteiras consumidas apenas nos prazeres da carne, na distração, na superficialidade, no adiamento do essencial.
Mas o tempo não foi dado para ser desperdiçado. Foi dado para ser fecundado.
No tempo somos chamados à sementeira da eternidade. Essa talvez seja uma das mais belas compreensões espíritas: o presente é terreno de semeadura do eterno.
Quem não fecunda o tempo com valores imperecíveis, vê o próprio tempo consumir aquilo que edificou fora da Lei Divina. Porque só permanece o que é construído em amor.
Todo o resto é palha.
Há uma expressão profunda: a conta da vida. Ela chega. Silenciosamente. Sem aviso. E pergunta:
O que fizeste com teus dias? Com teus talentos? Com os encontros que te transformariam? Com os convites do Cristo?
Porque o Cristo nos busca. Nem sempre somos nós buscando Deus. Muitas vezes é Deus quem nos busca há séculos. Busca-nos num livro que cai em nossas mãos. Num conselho recebido. Num amigo que nos alerta. Numa perda. Numa enfermidade. Numa experiência difícil. Na dor que acorda.
Quantas vezes a vida nos chama e resistimos?
A vida oferece campo de serviço e a alma adia, esquiva-se, posterga.
Mas a oportunidade desperdiçada cobra retorno. Porque a existência nos busca para o trabalho.
Os benfeitores nos buscam para a obra. O Cristo nos busca para o despertar. E muitas vezes não despertamos.
Por isso é grave refletir sobre os dois tipos de ignorância. Há a ignorância daquele que realmente não sabe. Essa ainda é atenuante. Mas há a mais séria: a daquele que quer ignorar. A que já recebeu a luz, mas fecha os olhos. Já sabe onde estão as respostas, mas prefere a ilusão. Já conhece o caminho, mas insiste no desvio.
Essa ignorância voluntária é perigosa porque paralisa a alma. É escolher a venda quando a aurora já chegou. O tempo, então, torna-se cobrança educativa.
Mas voltemos:
O que é o tempo?
Em nossa experiência humana ele é profundamente relativo. Uma hora de sofrimento parece eterna. Um momento de alegria voa. Na infância, tudo demora. Na velhice, tudo parece correr. Porque o tempo do relógio não é o tempo da alma.
O tempo é experiência. É campo. É oficina. É pedagogia. É o cenário onde o Espírito é chamado a semear o que sobreviverá à morte.
Quem vive apenas para os prazeres da carne morre com eles. Porque eram passageiros.
Mas quem usa o tempo para o que é eterno continua enriquecido além do túmulo. Cada estudo sincero, cada esforço de reforma íntima, cada serviço prestado, cada perdão difícil, cada renúncia silenciosa, cada dever bem cumprido, cada consciência em paz.
Tudo isso atravessa a morte. Nada disso se perde. Isso é utilizar o tempo para o eterno.
Eis por que o Espiritismo insiste tanto no trabalho no bem. Servir não é apenas caridade externa. É laboratório de virtudes e no serviço nasce paciência, no dever floresce disciplina, na renúncia amadurece amor, no bem semeado acende-se luz.
Tudo isso precisa caber no tempo de cada dia, não nas sobras do tempo mas centro dele.
Muitos perguntam como aproveitar melhor a encarnação. Talvez a resposta seja simples e profunda:
Não viver apenas ocupando tempo, mas santificando-o. Há diferença.
Ocupamos tempo quando apenas existimos. Santificamos o tempo quando damos sentido à existência.
O homem moderno sofre por falta de tempo, mas frequentemente o problema não é falta — é direção.
Gasta-se energia com o urgente e negligencia-se o essencial. Mas o essencial é o que atravessa a morte.
Quando Antero de Quental põe o Tempo dizendo: “Louva o trabalho que te imponho aos dias...”
Louvar o trabalho dos dias, não amaldiçoar as lutas, não fugir das tarefas, não desperdiçar a encarnação.
Porque, sem esse trabalho do tempo sobre nós, como disse o soneto, permaneceríamos “vermes presos às furnas do Universo”.
É o tempo que, sob as leis divinas, nos arranca da larva para o anjo, da sombra para a consciência, do egoísmo para o amor, da ignorância para a luz.
E cada existência é um degrau, uma oficina, uma escola, uma chance.
Talvez por isso a pergunta decisiva não seja: Quanto tempo tenho?
Mas: O que faço do tempo que me foi dado?
Porque o tempo não é apenas duração é missão.
A Doutrina Espírita nos convida a ver cada dia como patrimônio evolutivo. Cada manhã como nova concessão, cada experiência como lição, cada encontro como possibilidade de crescimento.
E assim, quando chegar o retorno ao mundo espiritual, não voltaremos de mãos vazias. Voltaremos mais adiantados e mais conscientes e luminosos.
Porque fizemos do tempo instrumento de eternidade.
No fundo, o tempo não nos foi dado para matar, foi dado para despertar.
E talvez essa seja a grande lição:
não usar o tempo para apenas viver — mas para aprender a ser eterno.
Que assim seja!
Estudo Relacionado: PROCURAI E ACHAREIS, BATEI E SE VOS ABRIRÁ
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo
.png)


Comentários
Postar um comentário
Olá amigos,Deixem aqui seus comentários!