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Amei, fui desprezado. E agora? A caridade moral à luz do Espiritismo

                          

Quando pensamos em caridade, quase sempre imaginamos gestos concretos: oferecer alimento a quem tem fome, roupas a quem sente frio, recursos financeiros a quem atravessa dificuldades. Sem dúvida, essa é uma das expressões mais nobres do amor cristão. Entretanto, os Espíritos esclarecem que existe uma caridade ainda mais delicada, mais exigente e menos reconhecida pelos homens: a caridade moral.

No capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, itens 9 e 10, os benfeitores espirituais afirmam:

"A caridade material é fácil; a caridade moral é mais difícil, porque consiste em se suportarem uns aos outros."

Essa frase contém uma das maiores lições da vida em sociedade.

É relativamente simples abrir a carteira e repartir um pouco do que temos. Difícil é repartir compreensão. Difícil é dominar o orgulho ferido. Difícil é silenciar diante da palavra impensada. Difícil é suportar a ingratidão sem transformar o coração em campo de amargura.

A difícil arte de suportar uns aos outros

Todos nós desejamos ser compreendidos, respeitados e acolhidos. Porém, raramente percebemos que o próximo também luta suas próprias batalhas invisíveis.

A caridade moral consiste em tolerar as imperfeições alheias sem agressividade. Significa deixar falar o mais tolo sem ridicularizá-lo; ouvir opiniões com as quais não concordamos sem recorrer ao sarcasmo; não responder à grosseria com outra grosseria; não alimentar fofocas; não humilhar quem erra; não devolver desprezo por desprezo.

Os Espíritos chegam a mencionar o sorriso de desdém — aquele gesto aparentemente insignificante, mas capaz de ferir profundamente. Quantas vezes destruímos a confiança de alguém por meio de uma ironia, de um olhar de superioridade ou de uma crítica impiedosa?

A verdadeira caridade não expõe, não constrange e não se alimenta da fraqueza do outro.

Quando fazemos o bem e recebemos desprezo

Talvez uma das experiências mais dolorosas da existência seja oferecer sinceramente o bem e, em troca, receber frieza, indiferença ou até antipatia.

Há pessoas que ajudamos durante anos e que parecem não reconhecer nossos esforços. Há amigos que se afastam sem explicação. Que não sabem ser caridosos, dando um telefonema, se importando com os que estão sós. Há familiares que interpretam mal nossas intenções. Existem ambientes em que nossa presença desperta resistência, mesmo sem que tenhamos causado qualquer mal deliberado.

Diante disso, surge a pergunta inevitável:

"Vale a pena continuar fazendo o bem?"

O Espiritismo responde: sim.

Mas não porque devamos cultivar uma humildade passiva ou aceitar abusos sem discernimento. Fazemos nossa parte por caridade, porque o bem realizado transforma, antes de tudo, aquele que o pratica.

Jesus curou muitos que depois o abandonaram.

Foi amado por multidões e condenado pelas mesmas vozes que o exaltavam.

Nem por isso deixou de amar.

A caridade verdadeira não depende dos aplausos humanos.

Não ver o desprezo

Os Espíritos ensinam algo extraordinário: não devemos nos deter na intenção hostil daqueles que nos ferem.

Isso não significa fingir que a dor não existe.

Significa não permitir que ela se torne o centro da nossa vida interior.

Há pessoas que carregam feridas profundas, frustrações antigas, ciúmes, inseguranças e conflitos que desconhecemos. Muitas vezes, a antipatia dirigida a nós fala mais sobre o sofrimento do outro do que sobre quem realmente somos.

Ver apenas a ofensa é interromper o ciclo do amor.

Ver além dela é exercer caridade moral.

Não se trata de ingenuidade, mas de maturidade espiritual.

A solidão de quem apenas quis fazer o bem

Algumas pessoas experimentam uma solidão difícil de explicar.

Sentem-se abandonadas, esquecidas, incompreendidas. Olham para trás e concluem:

"Eu só procurei ajudar. Por que estou sozinho?"

Sob a ótica espírita, essa experiência pode constituir uma provação.

Não necessariamente um castigo.

As provações são oportunidades educativas da alma. Elas revelam nossas fragilidades ocultas, fortalecem a confiança em Deus e nos convidam a purificar as intenções.

Às vezes, fazemos o bem esperando, inconscientemente, reconhecimento, gratidão ou afeto. Quando esses retornos não acontecem, sofremos.

A solidão pode ensinar que o verdadeiro valor da caridade está no ato de amar, não na resposta recebida.

Em outras situações, podemos estar reparando antigos desequilíbrios de relacionamentos construídos em existências passadas. Sem conhecer os detalhes da própria história espiritual, cabe-nos compreender que Deus não permite dores inúteis.

Toda experiência possui finalidade educativa.

Como agir segundo os ensinamentos do Evangelho?

O Evangelho oferece orientações práticas:

  • Continue fazendo o bem que estiver ao seu alcance.

  • Não transforme a ingratidão alheia em motivo para endurecer o coração.

  • Afaste-se, quando necessário, sem ódio ou desejo de vingança.

  • Evite alimentar ressentimentos.

  • Não retribua ironia com ironia.

  • Ore por aqueles que lhe causam sofrimento.

  • Preserve a própria dignidade sem perder a benevolência.

  • Procure compreender antes de condenar.

  • Não espere recompensas humanas pelo bem praticado.

  • Confie que Deus conhece intenções que os homens ignoram.

Amei-vos uns aos outros

O convite do Cristo permanece atual:

"Amai-vos uns aos outros."

Não é um amor romântico, seletivo ou condicionado.

É o amor que escolhe compreender quando poderia atacar.

É o amor que silencia diante da provocação.

É o amor que respeita o tempo de amadurecimento do próximo.

É o amor que continua servindo, mesmo quando não recebe reconhecimento.

A caridade material alimenta o corpo por algumas horas.

A caridade moral alimenta almas por muitos anos.

Talvez nunca saibamos quantas dores evitamos por causa de uma palavra gentil, quantos abismos fechamos por causa de um gesto de compreensão ou quantos corações preservamos porque decidimos não responder ao mal com o mal.

Se hoje você se sente só, incompreendido ou esquecido, lembre-se: Deus vê o bem que os homens não enxergam.

Nenhuma lágrima é ignorada pela Providência.

Nenhum esforço sincero de amor se perde.

Continue amando.

Continue servindo.

Continue fazendo a sua parte.

Porque a verdadeira caridade não consiste apenas em dar o que possuímos, mas em oferecer aos outros aquilo que todos nós mais necessitamos: compreensão, paciência, misericórdia e esperança.

E, quando tudo parecer difícil, recordemos as palavras dos Espíritos: a caridade moral consiste em nos suportarmos uns aos outros.

Talvez seja justamente aí que começa a nossa maior transformação espiritual.

Estudo Relacionado: Dores Morais no Espiritismo

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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