Herança Genética e Reencarnação: o que o Espiritismo ensina sobre filhos e deficiência
Por que filhos tão diferentes podem nascer dos mesmos pais? Como explicar crianças extremamente inteligentes em lares simples, ou filhos com severas limitações físicas e intelectuais em famílias saudáveis? Afinal, somos apenas o resultado da genética ou existe algo além dos cromossomos?
A Doutrina Espírita oferece uma perspectiva profunda e consoladora sobre essas questões. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta aos Benfeitores se os pais transmitem aos filhos uma porção de suas almas. A resposta, registrada na questão 203, é clara e objetiva: "o Espírito é indivisível". Os pais transmitem a vida corporal, fornecendo os elementos materiais necessários para a formação do organismo, mas a individualidade espiritual pertence exclusivamente ao reencarnante.
Em outras palavras, aquilo que é do corpo nasce no corpo; aquilo que é do Espírito nasce do Espírito.
Recebemos de nossos pais o patrimônio genético que servirá de base para a construção da nova morada física. Herdamos traços biológicos, predisposições orgânicas, características fisiológicas. Contudo, não herdamos inteligência, virtudes, tendências morais ou conquistas espirituais como quem recebe uma herança material.
Por isso, um pai intelectualmente limitado pode ter filhos brilhantes, assim como pais altamente instruídos podem acolher crianças com dificuldades cognitivas importantes. A genética explica o instrumento; o Espírito explica o músico que o utiliza.
A ciência moderna demonstra que os genes influenciam profundamente o funcionamento do corpo. Entretanto, o Espiritismo amplia essa visão ao afirmar que a própria estrutura orgânica não surge ao acaso. O corpo constitui um recurso educativo, compatível com as necessidades evolutivas do Espírito.
Missionário ou aprendiz.
Benfeitor ou reeducando.
Tarefeiro experiente ou Espírito em reajuste.
Todos receberão um corpo adequado aos compromissos assumidos perante as leis divinas.
Essa compreensão torna-se particularmente sensível quando refletimos sobre crianças que nascem com deficiências físicas ou intelectuais.
No capítulo "O Quinto Filho", Richard Simonetti no livro "Quem tem medo dos Espíritos?" aborda com delicadeza a experiência de famílias que recebem filhos portadores de limitações importantes. Sob a ótica espírita, essas crianças não são castigos divinos nem vítimas do acaso biológico. São Espíritos imortais vivendo experiências compatíveis com suas necessidades de crescimento.
As dificuldades orgânicas podem representar oportunidades de aprendizado, reparação e desenvolvimento de valores como humildade, paciência, dependência afetiva e confiança.
Da mesma forma, os pais não são vítimas de uma fatalidade cruel. Frequentemente, constituem parceiros espirituais desses filhos, assumindo compromissos de amor, amparo e reabilitação. Em muitos casos, antigos desafetos transformam-se em familiares; antigos erros convertem-se em oportunidades de reconciliação.
Não se trata de punição, mas de educação da alma.
É importante destacar que não cabe aos homens identificar quais débitos espirituais cada pessoa possui. Não conhecemos o passado reencarnatório de ninguém. A interpretação espírita oferece uma possibilidade explicativa, jamais uma sentença condenatória.
Entre as condições genéticas mais conhecidas está a Síndrome de Down, decorrente da presença de um cromossomo extra. A medicina identifica corretamente sua causa biológica. O Espiritismo, sem negar a ciência, propõe que os mecanismos genéticos também podem integrar o planejamento reencarnatório do Espírito.
A alteração cromossômica seria o instrumento físico; a necessidade evolutiva, sua razão espiritual.
Por isso, expressões antigas e preconceituosas utilizadas para designar essas pessoas devem ser abandonadas. Antes de qualquer diagnóstico, estamos diante de Espíritos dignos, amados por Deus e portadores de direitos inalienáveis.
Infelizmente, nem sempre a humanidade compreendeu isso.
Civilizações materialistas da Antiguidade eliminavam crianças nascidas com deformidades ou limitações. A busca pela perfeição física justificava o abandono e a morte dos mais frágeis.
Hoje, embora tenhamos avançado cientificamente, persistem dilemas éticos semelhantes. Em diversos lugares do mundo, embriões são descartados após a detecção de possíveis deficiências. A tecnologia muda; a pergunta moral permanece: quem decide quais vidas merecem ser vividas?
O Espiritismo posiciona-se pela defesa da vida desde a concepção, admitindo exceção apenas quando a continuidade da gestação representa risco concreto à vida materna. E são incontáveis os testemunhos de mães que, mesmo diante de diagnósticos difíceis, escolhem acolher seus filhos. Muitas relatam que receberam, justamente dessas crianças, as maiores lições de amor, renúncia e fé.
Elas descobriram que cuidar também cura.
Que ensinar também transforma.
Que amar também reabilita.
A genética fornece os tijolos; o Espírito define a obra que precisa construir.
Recebemos dos pais o material necessário para edificar o corpo. Essa organização ocorre sob o automatismo das leis divinas ou mediante cuidadoso planejamento espiritual, resultando sempre numa estrutura orgânica compatível com nossas necessidades.
Nada é inútil.
Nenhuma lágrima é desperdiçada.
Nenhuma limitação diminui o valor de um Espírito.
Se a existência nos apresenta saúde abundante, somos convidados à responsabilidade. Se nos oferece desafios severos, somos chamados à superação. Em qualquer circunstância, permanece a mesma verdade consoladora: Deus não cria destinos sem propósito.
Cada reencarnação é uma nova oportunidade.
Cada família é uma oficina de aperfeiçoamento.
E cada corpo, perfeito ou limitado aos olhos humanos, constitui um sagrado instrumento para a evolução do Espírito imortal.
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo



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