A Encarnação se Completa aos 7 Anos? Entenda o que o Espiritismo Ensina
A reencarnação é um dos pilares da Doutrina Espírita. Graças a ela compreendemos que a vida não começa no berço nem termina no túmulo. O Espírito é imortal e utiliza sucessivos corpos físicos como instrumentos de aprendizado, progresso e reparação. Entretanto, embora esse princípio seja amplamente conhecido, poucos estudiosos dedicam atenção ao delicado processo que ocorre entre a concepção e os primeiros anos de vida.
Segundo a literatura espírita, a reencarnação não é um acontecimento instantâneo. A ligação entre Espírito e matéria desenvolve-se gradualmente, envolvendo mecanismos biológicos, perispirituais e psíquicos que se estendem por vários anos após o nascimento. É justamente nesse período que o Espírito, ainda parcialmente vinculado às experiências da vida espiritual e da existência anterior, vai, pouco a pouco, ajustando-se ao cérebro em formação e assumindo plenamente sua nova personalidade terrestre.
Essa compreensão encontra sólido respaldo na Codificação Espírita e é ampliada pelas obras de André Luiz e Emmanuel, permitindo-nos compreender por que a infância representa uma fase tão singular da existência humana.
A reencarnação começa na concepção
A Doutrina Espírita ensina que a união da alma com o corpo inicia-se na concepção. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec explica que, no momento em que o óvulo é fecundado, o Espírito destinado àquela existência passa a ligar-se ao embrião por meio de laços fluídicos que se estreitam progressivamente.
Essa ligação, porém, ainda não é definitiva. O Espírito conserva relativa liberdade de ação durante a gestação, permanecendo parcialmente emancipado do corpo em formação. O vínculo aumenta de intensidade conforme o organismo se desenvolve, até firmar-se completamente após o nascimento.
Nas questões 344 e seguintes de O Livro dos Espíritos, os Espíritos superiores esclarecem que o perispírito funciona como elemento intermediário entre a alma e o corpo físico. É ele quem estabelece a integração entre a consciência imortal e a matéria, adaptando-se célula por célula ao novo organismo.
Assim, desde os primeiros instantes da fecundação, inicia-se um extraordinário trabalho de sintonia magnética. O Espírito imprime ao corpo as características necessárias ao cumprimento de sua programação reencarnatória, ao mesmo tempo em que precisa adaptar suas percepções às limitações do cérebro em desenvolvimento.
A gestação e a perturbação reencarnatória
Ao contrário do que muitos imaginam, o Espírito não "entra" simplesmente no corpo no instante do nascimento.
A literatura espírita descreve um processo muito mais complexo. Durante a gestação, ocorre aquilo que diversos autores chamam de perturbação reencarnatória. Trata-se de um estado transitório em que a consciência espiritual reduz gradativamente sua lucidez para adaptar-se às futuras limitações do organismo físico.
Essa diminuição da percepção não representa perda de inteligência nem esquecimento definitivo. É semelhante ao adormecimento progressivo de alguém que permanece consciente de alguns acontecimentos, mas cuja atenção vai sendo absorvida por outra realidade.
Em Missionários da Luz, André Luiz descreve com riqueza de detalhes o trabalho dos benfeitores espirituais na preparação do renascimento. O perispírito ajusta-se delicadamente ao sistema nervoso do feto, estabelecendo ligações cada vez mais profundas com o cérebro e os centros vitais.
Cada célula que se organiza torna-se um novo ponto de fixação entre o Espírito e o corpo.
Por isso, a reencarnação não pode ser compreendida como um simples evento biológico. Trata-se de um processo contínuo de integração entre dois mundos: o espiritual e o material.
O nascimento representa apenas uma etapa
Sob a ótica espírita, o parto não encerra a reencarnação.
O nascimento marca apenas o início da vida independente do organismo físico. O Espírito, entretanto, ainda permanece em fase de adaptação.
Essa ideia aparece de forma muito clara em O Livro dos Espíritos, questão 380:
"Durante esse período, os Espíritos consideram a criança como um ser que necessita de proteção especial."
A infância possui uma finalidade educativa.
Kardec pergunta por que o Espírito passa pela infância, mesmo sendo antigo. A resposta é profundamente significativa: Deus lhe concede esse período para torná-lo mais acessível às influências que deverão contribuir para o seu aperfeiçoamento.
Ou seja, a criança não é um Espírito "novo". É um Espírito milenar utilizando um cérebro infantil.
Enquanto o organismo amadurece, suas faculdades superiores permanecem parcialmente veladas.
Os sete primeiros anos: a grande adaptação à matéria
É em O Consolador, questão 109, que Emmanuel oferece um importante complemento à Codificação.
Segundo ele, a primeira infância corresponde ao período de maior adaptação entre o Espírito e o novo instrumento físico.
Até aproximadamente os sete anos, o reencarnante ainda se encontra ajustando profundamente sua consciência ao cérebro e ao sistema nervoso.
Isso não significa que a encarnação "comece" apenas aos sete anos.
Ela começou na concepção.
Também não significa que antes dessa idade a criança não esteja plenamente viva.
O que ocorre é a consolidação gradual da personalidade terrestre.
À medida que o cérebro amadurece, torna-se capaz de expressar cada vez melhor as faculdades do Espírito.
Enquanto isso não acontece, parte significativa da consciência permanece amortecida pela própria necessidade de adaptação.
Essa interpretação harmoniza-se perfeitamente com a observação científica do desenvolvimento infantil.
Os primeiros anos da vida são justamente aqueles em que ocorre a mais intensa formação das conexões neurais, do sistema emocional, da linguagem, da memória e da identidade.
Sob a ótica espírita, o progresso biológico acompanha o progresso da fixação perispiritual.
Corpo e Espírito amadurecem em conjunto.
Por que a criança parece tão ligada ao mundo espiritual?
É comum que muitas crianças demonstrem percepções incomuns.
Algumas relatam ver pessoas invisíveis.
Outras descrevem lugares onde nunca estiveram.
Há aquelas que manifestam medos aparentemente sem causa ou afinidades espontâneas com determinados ambientes.
A Doutrina Espírita recomenda prudência diante desses relatos.
Nem toda manifestação infantil possui origem espiritual.
Entretanto, é natural que, durante os primeiros anos da existência, o Espírito conserve maior sensibilidade às vibrações espirituais.
Seu perispírito ainda não está completamente condicionado às limitações da matéria.
Além disso, a criança ainda não desenvolveu plenamente os mecanismos psicológicos que, na vida adulta, concentram quase toda a atenção no mundo físico.
Ela permanece, por assim dizer, mais permeável às influências espirituais e ao ambiente moral que a cerca.
Daí a enorme responsabilidade dos pais.
As emoções vividas dentro do lar, o equilíbrio dos familiares, os hábitos, as conversas, as preces e até mesmo os conflitos cotidianos exercem profunda influência sobre o Espírito reencarnante.
As lembranças da existência anterior e as ecmnésias
Outro aspecto frequentemente estudado é a possibilidade de a criança recordar experiências de vidas passadas.
Em O Livro dos Espíritos, questão 385, Kardec pergunta se a criança conserva lembranças da existência anterior.
A resposta indica que essas recordações permanecem latentes, mas normalmente são obscurecidas pela nova organização corporal.
Todavia, durante os primeiros anos, podem ocorrer manifestações espontâneas conhecidas como ecmnésias, termo utilizado na psicologia para designar o reaparecimento vívido de lembranças remotas.
No contexto espírita, algumas dessas manifestações podem representar reminiscências da existência anterior.
São casos raros, geralmente espontâneos, sem qualquer indução.
A criança descreve pessoas, lugares, costumes ou acontecimentos incompatíveis com seus conhecimentos atuais.
À medida que o cérebro amadurece e a personalidade terrestre se consolida, essas lembranças tendem naturalmente a desaparecer.
Esse esquecimento não constitui uma perda.
É uma bênção.
Como ensina Kardec, recordar plenamente todas as existências anteriores tornaria extremamente difícil a convivência humana e comprometeria o livre exercício do presente.
O Espírito precisa viver a nova oportunidade sem permanecer emocionalmente aprisionado às experiências passadas.
O acoplamento do perispírito ao organismo
André Luiz aprofunda essa compreensão ao explicar que o perispírito realiza um verdadeiro acoplamento ao sistema nervoso.
Não se trata apenas de uma ligação inicial.
É um ajuste contínuo.
Enquanto o cérebro cresce, novas possibilidades de expressão da inteligência vão sendo liberadas.
Cada etapa do amadurecimento cerebral corresponde à ampliação dos recursos através dos quais o Espírito pode manifestar sua individualidade.
Isso explica por que uma criança de dois anos possui capacidades muito diferentes das de outra com seis anos.
O Espírito é o mesmo.
Quem amadurece é o instrumento físico.
Quanto mais aperfeiçoado o cérebro, maior a possibilidade de exteriorização das faculdades intelectuais e morais.
A chamada "crise dos oito anos"
Alguns estudiosos espíritas utilizam a expressão "crise dos oito anos" para designar uma importante fase da infância.
O tema foi desenvolvido por Guaraci de Lima Silveira em estudo publicado na revista O Consolador, inspirado na questão 109 de Emmanuel.
Segundo essa interpretação, por volta dos sete ou oito anos ocorre um marco psicológico importante: a consciência da atual personalidade torna-se predominante.
As lembranças difusas do período espiritual praticamente desaparecem.
A criança passa a identificar-se mais intensamente com seu "eu" atual.
Sua individualidade terrena ganha maior estabilidade.
Embora essa expressão não faça parte da Codificação Espírita, ela representa uma interessante hipótese interpretativa coerente com os ensinamentos de Emmanuel sobre o processo de adaptação reencarnatória.
Dos sete aos quatorze anos: consolidação da personalidade
Após esse período inicial, inicia-se uma nova etapa.
O Espírito já se encontra profundamente integrado ao organismo físico, mas ainda vive intenso processo educativo.
É nessa fase que se fortalecem os hábitos, os valores morais, o senso de responsabilidade e os primeiros exercícios conscientes do livre-arbítrio.
As tendências trazidas de outras existências começam a aparecer com maior nitidez.
Virtudes e imperfeições anteriormente apenas insinuadas passam a manifestar-se de forma mais clara.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento hormonal e neurológico prepara o organismo para a adolescência.
A família continua exercendo papel decisivo.
Os exemplos, o diálogo, a disciplina equilibrada e a educação moral tornam-se instrumentos valiosos para orientar as inclinações do Espírito.
A partir dos quatorze anos: o Espírito assume plenamente sua experiência terrestre
Com a adolescência, o processo de integração entre Espírito e corpo encontra-se suficientemente consolidado para permitir maior autonomia da personalidade encarnada.
Não significa que o desenvolvimento espiritual tenha terminado.
Ao contrário.
Começa agora uma fase de maiores responsabilidades.
O jovem passa a responder de maneira cada vez mais consciente pelas próprias escolhas.
O cérebro já oferece recursos suficientes para que as faculdades intelectuais e morais do Espírito se expressem com intensidade crescente.
As provas reencarnatórias assumem novo ritmo.
Os compromissos assumidos antes da reencarnação começam a apresentar-se de maneira mais objetiva.
É nesse período que muitas vocações despertam, antigos afetos reaparecem, tendências se fortalecem e desafios morais se tornam mais evidentes.
Considerações finais
A infância, sob a ótica espírita, é muito mais do que um estágio biológico do desenvolvimento humano. Ela representa um período de extraordinária misericórdia divina, em que o Espírito recebe tempo para adaptar-se lentamente à nova existência, sem romper abruptamente os laços com a realidade espiritual.
Desde a concepção, inicia-se uma delicada obra de integração entre o perispírito e o corpo físico. O nascimento inaugura uma nova etapa dessa jornada, mas não a conclui. Durante os primeiros sete anos, o reencarnante ainda atravessa um processo de profunda acomodação da consciência à matéria, enquanto o cérebro amadurece e passa a oferecer condições para a expressão cada vez mais ampla da individualidade imortal.
É nesse contexto que se compreendem a maior sensibilidade espiritual da criança, a possibilidade de reminiscências espontâneas da existência anterior, a intensa influência do ambiente familiar e a importância decisiva da educação moral. A criança não é uma "folha em branco", mas um Espírito antigo, portador de conquistas, limitações e compromissos, temporariamente revestido da simplicidade própria da infância para melhor recomeçar.
À medida que avança para a adolescência, consolida-se a personalidade da atual existência, diminuem as recordações inconscientes do passado e amplia-se a responsabilidade diante das escolhas presentes. Assim, o estudo desse período revela não apenas um fenômeno biológico, mas um admirável mecanismo da Providência Divina, que oferece ao Espírito as melhores condições para renovar-se, reconstruir sua história e prosseguir na longa caminhada rumo à perfeição.
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo



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