A evolução da alma animal segundo o Espiritismo: do princípio inteligente à consciência humana
A evolução da alma é um dos temas mais profundos da Doutrina Espírita. Embora Allan Kardec não tenha desenvolvido uma teoria completa sobre todas as etapas da evolução do princípio inteligente antes da humanidade, ele deixou bases sólidas que foram ampliadas por estudiosos como Caibar Schutel, Léon Denis, Gabriel Delanne e por comunicações atribuídas ao Espírito de Verdade. A ideia central é simples e grandiosa: a vida não dá saltos. Tudo evolui segundo leis naturais, desde as manifestações mais rudimentares da existência até os mais elevados estados de consciência.
Essa visão não diminui o ser humano; ao contrário, revela a imensidão da jornada percorrida por cada Espírito.
O princípio inteligente e sua origem
No Espiritismo, é importante distinguir o Espírito (com "E" maiúsculo), já individualizado e consciente de sua responsabilidade moral, do espírito (com "e" minúsculo), também chamado de princípio inteligente, princípio espiritual ou mônada espiritual. Esses termos costumam designar a centelha inteligente criada por Deus no início de sua trajetória evolutiva.
Esse princípio inteligente não surge pronto. Ele é criado simples e ignorante, destinado à perfeição, desenvolvendo lentamente suas potencialidades através de incontáveis experiências na matéria e na vida espiritual.
Conforme ensina A Gênese, de Allan Kardec:
"Todas as almas têm a mesma origem e são destinadas ao mesmo fim. A todos o Supremo Senhor proporciona os mesmos meios de progresso, a mesma luz, o mesmo amor."
Não existem criaturas privilegiadas nem condenadas desde a origem. A diversidade que observamos entre os seres representa apenas diferentes estágios da mesma caminhada evolutiva.
"Do átomo ao arcanjo"
Outra expressão clássica presente em A Gênese resume essa trajetória:
"Do átomo ao arcanjo."
Essa frase não significa que um átomo literalmente se transforma em anjo. Trata-se de uma imagem para representar a ascensão gradual do princípio inteligente através dos diferentes graus da criação, desde as formas mais simples da manifestação da vida até os Espíritos puros.
A evolução é contínua, sem interrupções e sem milagres.
A famosa frase de Léon Denis
Léon Denis sintetizou essa ideia numa frase que se tornou uma das mais conhecidas da literatura espírita:
"O princípio inteligente dorme no mineral, sonha no vegetal e acorda no animal."
Essa afirmação possui caráter filosófico e simbólico.
No reino mineral não existe ainda manifestação da inteligência individual. A matéria encontra-se organizada segundo as leis divinas, mas o princípio inteligente permanece em estado potencial, como uma possibilidade ainda adormecida.
No vegetal surge uma organização muito mais complexa. Há crescimento, reprodução, adaptação ao ambiente e respostas aos estímulos externos. É como se a inteligência começasse a "sonhar", preparando-se para manifestações futuras.
É somente no reino animal que essa inteligência desperta verdadeiramente. Surgem instintos elaborados, memória, aprendizado, afetividade, capacidade de resolver problemas e certo grau de liberdade de ação.
Essa interpretação harmoniza-se com O Livro dos Espíritos, questão 597, quando Kardec pergunta:
"Visto que os animais têm uma inteligência que lhes dá certa liberdade de ação, há neles algum princípio independente da matéria?"
A resposta é afirmativa: existe nos animais um princípio inteligente independente do corpo físico.
A alma nasce no reino animal?
Entre os estudiosos espíritas, Caibar Schutel, em a Gênese da Alma afirma:
"A alma não poderia deixar de ter seu começo e seu nascimento no reino animal."
Essa frase deve ser compreendida corretamente.
Não significa que Deus cria Espíritos diretamente como animais. O que Schutel procura explicar é que a individualização efetiva da alma acontece quando o princípio inteligente alcança o reino animal, onde passa a desenvolver experiências próprias, memória, emoções e crescente autonomia.
É ali que começa o longo aprendizado que culminará, muito mais tarde, na condição humana.
O próprio Espírito de Verdade afirma:
"A alma dos animais segue uma lei progressiva como a alma humana... finalmente estes passarão um dia do reino animal para o reino hominal."
Também encontramos a seguinte afirmação:
"A alma do homem, no seu início, na sua infância, teve por origem uma série de existências que precedem o período que chamamos humanidade."
A humanidade, portanto, não representa o começo da vida espiritual, mas apenas uma nova etapa dessa longa caminhada.
Estivemos animais, não fomos animais
Sob a ótica espírita, uma distinção importante merece destaque.
Não é correto afirmar simplesmente que fomos animais.
Mais adequado é dizer que estivemos animais, assim como hoje estamos humanos.
Nossa essência nunca foi o corpo físico. Os corpos mudam continuamente conforme as necessidades evolutivas, enquanto o princípio inteligente permanece o mesmo, adquirindo experiências.
O corpo animal foi apenas um instrumento temporário de aprendizado.
Da mesma forma, o corpo humano também o é.
A evolução pelos reinos da natureza
Hoje a Biologia classifica os seres vivos em diferentes reinos, como Monera, Protista, Fungi, Vegetal e Animal, além do reino Mineral, que não é considerado vivo pela ciência.
Sob a perspectiva espírita, não há obrigação de afirmar que cada princípio inteligente tenha passado absolutamente por todos esses reinos exatamente como hoje os conhecemos. A própria Doutrina não estabelece essa sequência de maneira rígida.
É, porém, bastante provável que tenhamos estagiado em quase todas essas grandes etapas da natureza, além de inúmeras outras formas de vida existentes em mundos ainda desconhecidos da humanidade.
A evolução não acontece isoladamente.
Os princípios inteligentes associam-se uns aos outros, formando organismos progressivamente mais complexos, assimilando experiências coletivas e acelerando seu desenvolvimento.
Como ensina Caibar Schutel:
"Todos nós pagamos tributo ao reino inferior para chegarmos ao reino humano."
Darwin e o Espiritismo
Muitas pessoas imaginam que exista conflito entre Darwin e o Espiritismo.
Na realidade, ambos tratam de aspectos diferentes da evolução.
Darwin explicou, de maneira científica, como as espécies se modificam biologicamente através da seleção natural.
O Espiritismo procura responder outra pergunta: quem é o ser inteligente que utiliza esses corpos?
Para a Doutrina Espírita, o corpo evolui biologicamente enquanto o princípio inteligente evolui moral e intelectualmente.
São processos complementares.
O evolucionismo espírita amplia o evolucionismo biológico ao incluir a dimensão espiritual da existência.
E os povos indígenas?
Alguns antigos autores espíritas utilizaram expressões que hoje podem gerar interpretações equivocadas sobre povos indígenas ou sociedades tradicionais.
À luz do próprio Espiritismo, não é correto afirmar que indígenas sejam Espíritos "menos evoluídos".
Desenvolvimento tecnológico não é sinônimo de evolução espiritual.
Os povos originários possuem culturas próprias, elevada capacidade de adaptação à natureza e valores morais que frequentemente superam os das sociedades industrializadas.
Cada Espírito reencarna no meio mais adequado às suas necessidades evolutivas. O grau de civilização material não determina o grau de adiantamento moral.
Os animais possuem carma?
A palavra carma pertence às tradições orientais e não faz parte da terminologia espírita.
No Espiritismo, prefere-se falar em lei de causa e efeito.
Entretanto, essa lei atua de forma diferente conforme o grau de consciência.
Os animais não possuem responsabilidade moral comparável à humana. Agem predominantemente pelo instinto.
Sua evolução acontece principalmente pelo aprendizado adquirido nas experiências da vida, e não pela necessidade de reparar faltas morais.
Já o ser humano, dotado de razão e consciência mais ampla, responde pelas consequências de suas escolhas.
A evolução, portanto, não depende do sofrimento como castigo, mas da aquisição de conhecimento, amor e responsabilidade.
E os Elementais?
Diversas escolas espiritualistas descrevem os chamados elementais, seres que ocupariam uma faixa intermediária entre os animais e a humanidade.
Embora Allan Kardec não desenvolva uma doutrina específica sobre eles, alguns autores espíritas os associam aos Espíritos imperfeitos ou levianos descritos em O Livro dos Espíritos, caracterizados pela pouca maturidade moral.
Segundo essa interpretação, seriam seres que atuam exclusivamente no plano espiritual, colaborando na administração dos processos naturais sob orientação de Espíritos superiores.
É importante destacar que essa ideia não constitui ponto doutrinário consolidado do Espiritismo codificado, mas pertence ao campo das interpretações e estudos complementares.
O homem e os animais
Caibar Schutel em a Gênese da Alma, cita:
"Não há na carne do homem, no sangue, nos seus ossos, um átomo diferente daqueles que se acham nos corpos dos animais."
Biologicamente, compartilhamos a mesma matéria.
Espiritualmente, compartilhamos a mesma origem.
A diferença está no grau evolutivo do princípio inteligente.
Por isso também afirma o Espírito de Verdade:
"O homem é um deus para os animais, como outrora os Espíritos foram deuses para os homens."
Essa frase nos convida à responsabilidade. Se possuímos maior inteligência, maior deve ser nossa capacidade de proteger, cuidar e utilizar os animais com respeito e compaixão.
O fato de os animais possuírem alma não implica, necessariamente, a obrigatoriedade do vegetarianismo segundo a Doutrina Espírita. Contudo, convida-nos a refletir sobre o sofrimento que lhes impomos. Quanto maior a consciência e a sensibilidade de um ser, maior deve ser nosso dever moral de evitar crueldades e excessos.
Uma evolução sem fim
A evolução não termina na humanidade.
Ao conquistar o livre-arbítrio consciente, o Espírito apenas inicia uma etapa mais elevada de sua jornada. As experiências acumuladas nos reinos anteriores serviram de preparação para um desenvolvimento muito mais amplo, agora guiado por escolhas conscientes.
Como escreveu Caibar Schutel:
"O homem atravessou a escala zoológica para chegar a ser homem."
Mas nem mesmo o homem representa o destino final.
A caminhada prossegue indefinidamente, mundo após mundo, existência após existência, rumo à perfeição relativa dos Espíritos puros.
Essa é uma das mais belas mensagens do Espiritismo: ninguém está condenado à ignorância, ninguém foi criado privilegiado e ninguém permanecerá para sempre onde está. Todos, sem exceção, caminham sob a mesma lei divina de progresso, sustentados pelo amor de Deus e destinados, um dia, à plena realização espiritual.
Estudo Relacionado: A Origem e a Evolução da Espécie Humana
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo
.png)


Comentários
Postar um comentário
Olá amigos,Deixem aqui seus comentários!