A Escola Terrestre: por que há tantos Espíritos esperando para reencarnar?
A Doutrina Espírita convida-nos a enxergar a existência humana sob uma perspectiva profundamente diferente daquela que normalmente adotamos. Em vez de considerarmos a vida física como nossa verdadeira morada, aprendemos que ela representa apenas uma etapa transitória de nossa jornada imortal. A Terra é uma escola. O corpo é o uniforme temporário do aluno. A reencarnação é a oportunidade concedida pela Providência Divina para que cada Espírito aprenda, repare os próprios equívocos, desenvolva virtudes e avance em direção à perfeição.
Essa compreensão dissipa muitos dos medos que acompanham a morte e responde a uma dúvida muito comum: se uma pessoa desencarna cedo e outra permanece décadas na Terra, será que elas deixarão de se encontrar na vida espiritual?
Richard Simonetti, no capítulo Poucas vagas na escola, do livro Quem tem Medo dos Espíritos?, oferece uma reflexão extremamente consoladora. Segundo ele, o receio é infundado. A realidade espiritual funciona de maneira muito diferente da nossa percepção limitada pelo tempo terrestre. Enquanto aqui contamos os anos, no Além a permanência costuma ser muito mais longa do que imaginamos.
É interessante perceber que costumamos pensar exatamente o contrário da realidade. Imaginamos que passamos muito tempo encarnados e apenas um breve intervalo no mundo espiritual. O Espiritismo ensina justamente o oposto. Nossa verdadeira pátria é a dimensão espiritual. A existência física representa apenas um curto estágio educativo dentro de uma caminhada infinita.
Allan Kardec aborda essa questão em O Livro dos Espíritos, na pergunta 223, ao indagar qual o intervalo entre uma encarnação e outra. Os Espíritos respondem que esse período pode variar enormemente, não existindo uma regra fixa. Algumas reencarnações ocorrem quase imediatamente; outras somente depois de muitos séculos.
Nos comentários dessa questão, o Espírito Miramez amplia significativamente essa compreensão. Ele explica que o intervalo entre duas existências pode variar de praticamente zero até um tempo indefinido. Tudo depende das necessidades evolutivas do Espírito, do seu grau de adiantamento moral e das tarefas que lhe aguardam.
Há Espíritos que retornam rapidamente porque necessitam concluir experiências interrompidas, reparar compromissos urgentes ou aproveitar determinadas oportunidades familiares. Mas a maioria permanece centenas de anos na espiritualidade assimilando aprendizados, preparando futuras missões ou simplesmente desfrutando de um período de recuperação após existências particularmente difíceis.
Miramez observa ainda que, quanto mais iluminado é o Espírito, normalmente maior tende a ser seu intervalo antes de regressar aos mundos inferiores, como a Terra. Isso ocorre porque ambientes de vibração densa exigem cuidadoso planejamento para uma nova descida à matéria. Missionários como Francisco de Assis, por exemplo, permanecem longo tempo preparando-se antes de retornarem ao planeta para cumprir tarefas específicas junto à Humanidade.
Essa realidade ajuda-nos a compreender outra questão que frequentemente inquieta os corações saudosos. Imaginemos um casal. Um desencarna aos quarenta anos. O outro viverá até os noventa. Os cinquenta anos de diferença parecem enormes para quem permanece encarnado. Entretanto, diante da eternidade, representam apenas alguns instantes. Considerando que a permanência na vida espiritual frequentemente ultrapassa um século — e muitas vezes muito mais — torna-se evidente que os reencontros são não apenas possíveis, mas naturais.
Os laços construídos pelo verdadeiro amor não são desfeitos pela morte. Ao contrário, fortalecem-se. O Espírito liberto da matéria continua acompanhando, dentro dos limites permitidos pelas Leis Divinas, aqueles que permanecem na Terra, aguardando o momento oportuno do reencontro. Tão certa quanto a própria morte é a reunião daqueles que realmente aprenderam a amar.
Essa compreensão também explica por que os benfeitores espirituais insistem tanto para que valorizemos a oportunidade da reencarnação. Em inúmeras mensagens mediúnicas encontramos exortações semelhantes: aproveitem o tempo que Deus lhes concedeu; combatam suas imperfeições; renovem seus sentimentos; pratiquem a caridade; construam valores eternos.
Esses apelos tornam-se ainda mais significativos quando compreendemos que existem verdadeiras multidões de Espíritos aguardando uma oportunidade de renascer. A demanda por reencarnações é muito superior à oferta de corpos disponíveis. A escola terrestre possui vagas limitadas. Cada nascimento representa uma bolsa de estudos concedida pela misericórdia divina a um Espírito que deseja crescer.
Enquanto muitos de nós reclamamos das dificuldades da existência, incontáveis irmãos aguardam pacientemente sua vez de voltar à carne para reparar erros, reconciliar-se com desafetos, reencontrar familiares, desenvolver talentos ou simplesmente continuar aprendendo as lições do amor.
Sob essa perspectiva, os desafios da vida deixam de ser castigos e passam a representar exercícios indispensáveis ao nosso progresso. Cada dificuldade corresponde a uma disciplina da grande escola terrestre. Uns estudam a paciência através da enfermidade; outros aprendem o desapego pela perda; alguns exercitam o perdão nas relações difíceis; outros desenvolvem humildade diante das limitações da existência. Deus não distribui provas aleatoriamente. Cada experiência possui finalidade educativa perfeitamente compatível com as necessidades evolutivas de cada Espírito.
Por isso, desenvolver uma consciência reencarnatória significa viver cada dia com responsabilidade espiritual. Significa compreender que o sucesso de uma existência não se mede pelo patrimônio acumulado, pelo prestígio conquistado ou pelas posições ocupadas, mas pelas imperfeições vencidas, pelas virtudes adquiridas e pelo bem realizado em favor do próximo.
A vida física passa rapidamente. Nossa permanência no plano espiritual será muito mais extensa. É para essa realidade permanente que devemos preparar-nos desde agora, transformando a atual encarnação em um verdadeiro curso de aperfeiçoamento moral.
Quando finalmente retornarmos ao mundo espiritual, não levaremos bens materiais, títulos ou honrarias humanas. Levaremos apenas aquilo que construímos em nossa consciência. Cada gesto de amor, cada renúncia, cada ato de caridade e cada vitória sobre nós mesmos constituirão o patrimônio imperecível da alma.
Assim, a grande lição da escola terrestre não consiste apenas em aprender a viver, mas em aprender a viver para a eternidade. Como fala Davi, no belo Salmo XXIII, a esperança do Espírito não termina no túmulo: "E habitarei na casa do Senhor por longos dias." É justamente para que esse longo estágio na verdadeira pátria espiritual seja vivido em paz, alegria e consciência tranquila que Deus nos concede, de tempos em tempos, a preciosa oportunidade de frequentar a escola chamada Terra.
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo



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