Tentação: a prova que nos ensina a vencer a nós mesmos
“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.”
— Tiago 1:12
“Para trás, tentação!” Poderia parecer que o ideal seria viver sem tentações. Mas, à luz do Espiritismo, a questão é mais profunda: não se trata de desejar uma existência sem tentações, mas de aprender a não sucumbir a elas.
Enquanto estivermos em processo de evolução, carregando imperfeições, tendências e paixões que ainda precisamos educar, a tentação fará parte de nossa caminhada. Ela não representa necessariamente um fracasso; pode ser justamente a oportunidade de descobrirmos o quanto já conseguimos avançar.
A tentação não vem de Deus
Tiago é claro ao afirmar que Deus não pode ser tentado pelo mal e que Ele não tenta ninguém. A origem da tentação está na própria criatura: somos atraídos e envolvidos por aquilo que ainda encontra ressonância em nossa intimidade.
No versículo 14, Tiago afirma que cada um é tentado quando “atraído e engodado pela sua própria concupiscência”. Concupiscência, nesse contexto, pode ser compreendida como o desejo intenso e desordenado, a inclinação que ainda nos domina e que encontra espaço em nossas imperfeições.
É aí que a tentação se torna reveladora. Ela mostra aquilo que ainda somos.
Um desejo descontrolado, um vício, uma paixão, a necessidade de reconhecimento, a tendência à cólera, à vaidade, ao egoísmo ou à sensualidade desenfreada podem revelar pontos de nossa personalidade que ainda necessitam de educação. A tentação, portanto, funciona como uma espécie de espelho da alma.
Aquilo que nos tenta revela onde ainda precisamos trabalhar.
A verdadeira vitória acontece dentro de nós
É possível conquistar títulos, dinheiro, prestígio, bens e aplausos e, ainda assim, permanecer derrotado diante de si mesmo.
Alguém pode alcançar determinada posição violando a própria consciência, burlando leis, prejudicando outras pessoas ou alimentando sentimentos inferiores. Exteriormente, parece uma conquista. Espiritualmente, porém, que patrimônio foi realmente construído?
A verdadeira coroa da vida, mencionada por Tiago, não é medida pelos títulos que acumulamos, mas pelo que o Espírito precisou transformar em si para chegar até eles.
Cada vez que vencemos uma inclinação inferior, desenvolvemos uma pequena parcela de virtude, discernimento e sabedoria. Cada resistência ao mal é uma conquista sobre nós mesmos. E essas conquistas ninguém pode nos retirar.
A coroa da vida é construída assim: uma vitória sobre o orgulho, outra sobre a cólera, outra sobre o egoísmo, outra sobre o vício, outra sobre uma paixão que antes nos dominava.
Pedra por pedra, construímos dentro de nós aquilo que permanece para além da existência física.
O mal pensamento também pode se transformar em oportunidade
No capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec aborda o pecado por pensamento e explica que todo pensamento mau resulta da imperfeição da alma. Se ainda concebemos o mal, é porque alguma imperfeição permanece em nós.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter o pensamento e alimentá-lo.
O pensamento pode surgir. A vontade é que decidirá o que faremos com ele.
Quando resistimos energicamente à ideia inferior, aquela experiência que inicialmente parecia apenas uma ameaça transforma-se em ocasião de progresso. Depois de resistir, sentimo-nos mais fortes e satisfeitos com a própria vitória.
É o exercício da liberdade e do autodomínio.
Entre a influência e a escolha
O Espiritismo também nos apresenta a influência dos Espíritos sobre nossos pensamentos e atos. No entanto, influência não significa imposição.
Ao tratar da prece para pedir força para resistir à tentação, Kardec propõe justamente essa compreensão: diante de um mau pensamento, podemos imaginar a ação de um Espírito que nos solicita ao mal, mas também a presença de nosso Espírito protetor, que nos inspira para o bem.
A decisão permanece conosco.
A hesitação em fazer o mal pode ser a própria consciência dando voz à influência benéfica que recebemos. Deus permite a experiência porque precisamos aprender a governar a nós mesmos.
Resistir, portanto, não significa apenas escapar de uma situação difícil. Significa exercitar a vontade.
“Ser tentado é ouvir a própria malícia”
Emmanuel, em Caminho, Verdade e Vida, capítulo 129, intitulado “Origem das tentações”, sintetiza a questão na frase: “Ser tentado é ouvir a própria malícia.”
Mesmo quando recebemos influência espiritual, ela só encontra verdadeiro acesso quando existe sintonia em nossa intimidade.
É quando nossos vícios encontram espaço; quando a ausência de estudo, oração e serviço permite que antigas tendências predominem sobre os esforços renovadores que já começamos a realizar.
Por isso, as circunstâncias que mais nos atraem ou perturbam podem funcionar como indicadores do nosso mundo íntimo.
O que me tenta? O que ainda consegue me dominar? Em quais situações minha vontade enfraquece?
As respostas talvez revelem exatamente onde precisamos trabalhar.
A tentação como caminho de autoconhecimento
Não devemos pedir simplesmente para que Deus retire de nosso caminho todas as tentações. Podemos pedir força, lucidez e amparo para atravessá-las.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXVIII, apresenta tanto a prece para pedir força para resistir a uma tentação quanto a ação de graças pela vitória obtida sobre ela. A própria existência dessas duas preces é significativa: resistir é uma conquista digna de gratidão.
A tentação nos coloca diante de nós mesmos. Mobiliza nossa vontade, exige discernimento, convida-nos à oração e nos aproxima do auxílio dos bons Espíritos.
E, quando resistimos, algo muda.
Conhecemo-nos melhor. Governamo-nos um pouco mais. Fortalecemos aquilo que há de bom em nós.
Talvez seja esse o sentido mais profundo da bem-aventurança anunciada por Tiago: feliz não é aquele que jamais encontrou a tentação, mas aquele que, diante dela, aprendeu a vencer a si mesmo.
Enquanto houver imperfeição, haverá pontos vulneráveis. Mas cada resistência sincera diminui o poder que essas tendências exercem sobre nós.
Até que, um dia, aquilo que antes nos dominava já não encontre em nossa alma a mesma sintonia.
E então compreenderemos: a tentação nunca foi apenas uma prova a ser evitada.
Foi também uma oportunidade de descobrir quem ainda somos — e quem estamos aprendendo a ser.
Leia também: Influência dos Espíritos em nossos pensamentos
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo




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