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DIA DE FINADOS NA VISÃO ESPÍIRTA: A VIDA CONTINUA, MAS A SAUDADE PERMANECE

Para nós, espíritas, o Dia de Finados não possui um significado especial em relação aos demais dias do ano. Não acreditamos que os Espíritos estejam presos aos cemitérios, aguardando uma visita ou uma homenagem diante de seus túmulos. Afinal, ali repousam apenas os restos mortais, o corpo que serviu de instrumento ao Espírito durante sua experiência na Terra. A vida verdadeira, aquela que transcende a matéria, continua em outra dimensão. Allan Kardec, em  O Livro dos Espíritos , nas questões 149 e 150, esclarece que, com a morte do corpo físico, o Espírito retorna ao mundo espiritual, conservando sua individualidade. Não deixamos de existir, não perdemos quem somos, não apagamos nossas lembranças nem os sentimentos que construímos. A morte não destrói os laços de amor, apenas modifica a maneira como nos relacionamos. Na questão 321, Kardec pergunta se o Dia de Finados é especial para os Espíritos e se eles comparecem aos cemitérios. A resposta dos Espíritos é esclarecedora: eles at...

Tentação: a prova que nos ensina a vencer a nós mesmos

                               

“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.”
— Tiago 1:12

“Para trás, tentação!” Poderia parecer que o ideal seria viver sem tentações. Mas, à luz do Espiritismo, a questão é mais profunda: não se trata de desejar uma existência sem tentações, mas de aprender a não sucumbir a elas.

Enquanto estivermos em processo de evolução, carregando imperfeições, tendências e paixões que ainda precisamos educar, a tentação fará parte de nossa caminhada. Ela não representa necessariamente um fracasso; pode ser justamente a oportunidade de descobrirmos o quanto já conseguimos avançar.

A tentação não vem de Deus

Tiago é claro ao afirmar que Deus não pode ser tentado pelo mal e que Ele não tenta ninguém. A origem da tentação está na própria criatura: somos atraídos e envolvidos por aquilo que ainda encontra ressonância em nossa intimidade.

No versículo 14, Tiago afirma que cada um é tentado quando “atraído e engodado pela sua própria concupiscência”. Concupiscência, nesse contexto, pode ser compreendida como o desejo intenso e desordenado, a inclinação que ainda nos domina e que encontra espaço em nossas imperfeições.

É aí que a tentação se torna reveladora. Ela mostra aquilo que ainda somos.

Um desejo descontrolado, um vício, uma paixão, a necessidade de reconhecimento, a tendência à cólera, à vaidade, ao egoísmo ou à sensualidade desenfreada podem revelar pontos de nossa personalidade que ainda necessitam de educação. A tentação, portanto, funciona como uma espécie de espelho da alma.

Aquilo que nos tenta revela onde ainda precisamos trabalhar.

A verdadeira vitória acontece dentro de nós

É possível conquistar títulos, dinheiro, prestígio, bens e aplausos e, ainda assim, permanecer derrotado diante de si mesmo.

Alguém pode alcançar determinada posição violando a própria consciência, burlando leis, prejudicando outras pessoas ou alimentando sentimentos inferiores. Exteriormente, parece uma conquista. Espiritualmente, porém, que patrimônio foi realmente construído?

A verdadeira coroa da vida, mencionada por Tiago, não é medida pelos títulos que acumulamos, mas pelo que o Espírito precisou transformar em si para chegar até eles.

Cada vez que vencemos uma inclinação inferior, desenvolvemos uma pequena parcela de virtude, discernimento e sabedoria. Cada resistência ao mal é uma conquista sobre nós mesmos. E essas conquistas ninguém pode nos retirar.

A coroa da vida é construída assim: uma vitória sobre o orgulho, outra sobre a cólera, outra sobre o egoísmo, outra sobre o vício, outra sobre uma paixão que antes nos dominava.

Pedra por pedra, construímos dentro de nós aquilo que permanece para além da existência física.

O mal pensamento também pode se transformar em oportunidade

No capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec aborda o pecado por pensamento e explica que todo pensamento mau resulta da imperfeição da alma. Se ainda concebemos o mal, é porque alguma imperfeição permanece em nós.

Mas existe uma diferença fundamental entre ter o pensamento e alimentá-lo.

O pensamento pode surgir. A vontade é que decidirá o que faremos com ele.

Quando resistimos energicamente à ideia inferior, aquela experiência que inicialmente parecia apenas uma ameaça transforma-se em ocasião de progresso. Depois de resistir, sentimo-nos mais fortes e satisfeitos com a própria vitória.

É o exercício da liberdade e do autodomínio.

Entre a influência e a escolha

O Espiritismo também nos apresenta a influência dos Espíritos sobre nossos pensamentos e atos. No entanto, influência não significa imposição.

Ao tratar da prece para pedir força para resistir à tentação, Kardec propõe justamente essa compreensão: diante de um mau pensamento, podemos imaginar a ação de um Espírito que nos solicita ao mal, mas também a presença de nosso Espírito protetor, que nos inspira para o bem.

A decisão permanece conosco.

A hesitação em fazer o mal pode ser a própria consciência dando voz à influência benéfica que recebemos. Deus permite a experiência porque precisamos aprender a governar a nós mesmos.

Resistir, portanto, não significa apenas escapar de uma situação difícil. Significa exercitar a vontade.

“Ser tentado é ouvir a própria malícia”

Emmanuel, em Caminho, Verdade e Vida, capítulo 129, intitulado “Origem das tentações”, sintetiza a questão na frase: “Ser tentado é ouvir a própria malícia.”

Mesmo quando recebemos influência espiritual, ela só encontra verdadeiro acesso quando existe sintonia em nossa intimidade.

É quando nossos vícios encontram espaço; quando a ausência de estudo, oração e serviço permite que antigas tendências predominem sobre os esforços renovadores que já começamos a realizar.

Por isso, as circunstâncias que mais nos atraem ou perturbam podem funcionar como indicadores do nosso mundo íntimo.

O que me tenta? O que ainda consegue me dominar? Em quais situações minha vontade enfraquece?

As respostas talvez revelem exatamente onde precisamos trabalhar.

A tentação como caminho de autoconhecimento

Não devemos pedir simplesmente para que Deus retire de nosso caminho todas as tentações. Podemos pedir força, lucidez e amparo para atravessá-las.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXVIII, apresenta tanto a prece para pedir força para resistir a uma tentação quanto a ação de graças pela vitória obtida sobre ela. A própria existência dessas duas preces é significativa: resistir é uma conquista digna de gratidão.

A tentação nos coloca diante de nós mesmos. Mobiliza nossa vontade, exige discernimento, convida-nos à oração e nos aproxima do auxílio dos bons Espíritos.

E, quando resistimos, algo muda.

Conhecemo-nos melhor. Governamo-nos um pouco mais. Fortalecemos aquilo que há de bom em nós.

Talvez seja esse o sentido mais profundo da bem-aventurança anunciada por Tiago: feliz não é aquele que jamais encontrou a tentação, mas aquele que, diante dela, aprendeu a vencer a si mesmo.

Enquanto houver imperfeição, haverá pontos vulneráveis. Mas cada resistência sincera diminui o poder que essas tendências exercem sobre nós.

Até que, um dia, aquilo que antes nos dominava já não encontre em nossa alma a mesma sintonia.

E então compreenderemos: a tentação nunca foi apenas uma prova a ser evitada.

Foi também uma oportunidade de descobrir quem ainda somos — e quem estamos aprendendo a ser.

Leia também: Influência dos Espíritos em nossos pensamentos

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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