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Inteligência e moralidade: quando o poder perde a mão e abandona bem


O que torna alguém verdadeiramente apto a exercer autoridade sobre os outros?

Ao longo da história, diferentes respostas foram dadas a essa pergunta. Houve um tempo em que o poder esteve ligado à idade e à experiência; depois, à força, ao nascimento, à riqueza e, finalmente, à inteligência. Cada uma dessas formas de superioridade correspondeu a determinado estágio da humanidade.

Em Obras Póstumas, no capítulo “A aristocracia intelecto-moral do futuro”, Allan Kardec acompanha essa transformação e mostra que nenhuma dessas condições, isoladamente, poderia representar a verdadeira superioridade humana.

O nascimento podia ser herdado, a riqueza podia ser acumulada e a força podia impor obediência. A inteligência parecia representar um avanço, porque não dependia necessariamente da origem social e podia pertencer tanto ao rico quanto ao pobre.

Mas havia um problema: inteligência não é sinônimo de moralidade.

O homem inteligente pode utilizar suas faculdades para construir ou destruir, servir ou dominar. A capacidade intelectual amplia os recursos de ação, mas não determina a finalidade para a qual serão utilizados.

Por isso, Kardec aponta para a união dessas duas faculdades. A inteligência, sozinha, pode fazer mau uso de seus recursos; a moralidade, sem os recursos da inteligência, pode ser incapaz de realizar aquilo que pretende. A união de ambas, porém, poderia estabelecer uma preponderância legítima, baseada na capacidade e na justiça.

Essa reflexão nos conduz a uma questão muito atual: o que acontece quando aqueles que possuem inteligência, influência ou autoridade não possuem, na mesma proporção, compromisso moral?

Quando a inteligência se transforma em instrumento de poder

Quanto maior a capacidade de uma pessoa, maior pode ser sua influência sobre os outros. Por isso, o desenvolvimento intelectual, quando não acompanhado pelo desenvolvimento moral, pode produzir um paradoxo: o homem aprende cada vez mais sobre como alcançar seus objetivos, mas não necessariamente desenvolve igual preocupação com o que é justo.

Pode conhecer profundamente as regras e encontrar maneiras de contorná-las. Pode dominar a comunicação e utilizá-la para manipular. Pode compreender as fragilidades de uma sociedade e explorá-las para preservar interesses pessoais.

Isso não representa falta de inteligência. Representa inteligência sem direção moral.

É por essa razão que a pergunta fundamental não deveria ser apenas quem possui poder, mas como esse poder é utilizado.

Autoridade não é privilégio

O capítulo XVII de O Evangelho segundo o Espiritismo, no item 9, “Os superiores e os inferiores”, amplia essa compreensão.

Kardec apresenta a autoridade como uma missão ou prova, e não como propriedade daquele que a recebe. Quem exerce autoridade deverá prestar contas do uso que dela fez. Isso vale para qualquer relação de superioridade, desde aquele que dirige uma pequena equipe até quem possui responsabilidade sobre um povo.

Essa ideia é particularmente importante porque modifica o significado do poder.

Governar não significa ser dono daqueles que são governados. Dirigir não significa ter licença para impor interesses pessoais. A posição de autoridade aumenta a responsabilidade justamente porque suas decisões alcançam outras pessoas.

Kardec chama atenção ainda para as consequências do exemplo. Aquele que exerce autoridade pode responder não apenas pelos próprios atos, mas pela influência que sua conduta exerce sobre aqueles que estão sob sua responsabilidade. 

É aí que a questão deixa de ser apenas política ou administrativa e passa a ser essencialmente moral.

Quando o mau exemplo parece vencer

O problema aparece quando observamos uma sociedade em que a corrupção, a mentira, o abuso de poder ou o favorecimento pessoal parecem produzir resultados.

Pode surgir a sensação de que o mal compensa.

Quem age corretamente muitas vezes precisa respeitar limites, renunciar a vantagens e esperar. Enquanto isso, aquele que mente, manipula ou corrompe pode aparentar prosperidade e poder.

Essa inversão é especialmente perigosa para os jovens.

Eles observam o mundo antes mesmo de compreenderem completamente seus valores. Se percebem que determinados comportamentos condenados nos discursos são, na prática, recompensados com dinheiro, prestígio ou influência, podem questionar o próprio valor da honestidade.

“Se todos fazem, por que eu não faria?”

“Se mentir funciona, por que dizer a verdade?”

“Se quem faz o errado não sofre consequências, por que respeitar as regras?”

É assim que a corrupção pode produzir um efeito ainda mais profundo que o prejuízo material: ela pode corromper referências.

Uma sociedade começa a se desestruturar quando aquilo que deveria provocar reprovação passa a ser tratado como normal.

Por que a mentira se normaliza?

A repetição tem força. Uma mentira praticada muitas vezes pode deixar de causar indignação. Uma pequena desonestidade pode ser justificada como “necessária”. A vantagem obtida de maneira irregular pode ser chamada de “esperteza”.

Pouco a pouco, o erro passa a ser relativizado.

Mas o fato de determinado comportamento ser frequente não o transforma em correto.

É justamente nesse ponto que a questão moral precisa prevalecer sobre a conveniência. Se a sociedade começa a aceitar a mentira apenas porque ela se tornou comum, ou para afastar do poder alguém que pensa diferente, deixa de combater a causa do problema e passa a adaptar-se a ele. É ser conivente com a farsa.

Para o pensamento espírita, a transformação não pode ser construída dessa maneira. O progresso humano exige mudança de valores e, principalmente, mudança dos indivíduos que compõem a sociedade.

E por que Deus permite que os maus dominem?

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: se Deus é justo, por que permite que pessoas moralmente comprometidas cheguem ao poder e até dominem uma sociedade?

A resposta não pode ser simplesmente: “porque aquele povo merece”.

Não temos conhecimento suficiente para atribuir a determinado povo, grupo ou indivíduo uma causa espiritual específica para cada acontecimento. A lei de causa e efeito não deve ser transformada em instrumento para julgar o sofrimento alheio.

O que a Doutrina Espírita nos permite compreender é que Deus concede ao Espírito o livre-arbítrio e permite que ele experimente as consequências de suas escolhas. Isso vale também para a vida coletiva.

Permitir não significa aprovar.

Deus não precisa impedir imediatamente uma escolha equivocada para que ela esteja submetida à justiça. O indivíduo ou a sociedade pode utilizar mal sua liberdade e, posteriormente, encontrar as consequências desse uso.

E aqui entram os reveses.

Uma posição de poder pode parecer permanente, mas não é. Circunstâncias mudam, alianças se desfazem, erros são revelados, estruturas se enfraquecem e consequências podem alcançar aqueles que acreditavam estar acima delas.

Não significa afirmar que toda queda seja uma punição divina ou que saibamos identificar a causa espiritual de cada acontecimento. Significa compreender que, na perspectiva espírita, nenhuma situação humana é definitiva e o resultado imediato não representa necessariamente o resultado final.

O poder que parece absoluto hoje pode desaparecer amanhã.

O poder como prova

É justamente essa perspectiva que dá força ao ensinamento de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Se a autoridade é uma missão ou uma prova, então o poder não representa necessariamente uma recompensa. Pode ser justamente uma oportunidade de revelar o que o indivíduo fará quando tiver nas mãos recursos para influenciar outras pessoas. É um teste.

O problema não está simplesmente em possuir autoridade.

Está no que fazemos quando a recebemos.

O indivíduo pode utilizá-la para servir ou para satisfazer o próprio orgulho; para promover justiça ou proteger interesses pessoais.

E, quanto maior for o alcance dessa autoridade, maiores serão também as consequências de seu uso.

Por isso, a aparente vitória do mal em determinado momento não precisa produzir desespero nem acomodação. O fato de pessoas moralmente comprometidas ocuparem posições de poder não significa que a justiça tenha deixado de existir. Significa que o processo humano ainda está em construção.

Inteligência e moralidade: a mudança que Kardec propõe

É nesse ponto que as duas obras se encontram.

Em Obras Póstumas, Kardec mostra que a inteligência representa um avanço, mas não basta, é preciso ter moralidade para bem aplicá-la. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, mostra que a autoridade é uma missão e que aquele que a recebe responderá pelo uso que fizer dela.

A conclusão é clara: uma sociedade não precisa apenas de pessoas inteligentes; precisa de pessoas capazes de colocar a inteligência a serviço do bem.

Essa transformação começa antes de alguém chegar ao poder.

Começa na educação, nos exemplos familiares, nas relações profissionais, nas instituições e nas pequenas escolhas cotidianas. Começa quando deixamos de considerar a esperteza uma virtude, a mentira uma ferramenta aceitável e a vantagem pessoal uma medida de sucesso.

Não basta desejar que os maus caiam.

É necessário formar pessoas moralmente preparadas para ocupar os espaços que ficarem vazios.

É nesse sentido que a aristocracia intelecto-moral proposta por Kardec ganha significado. Não se trata de uma classe privilegiada, mas de uma humanidade em que aqueles que possuem maior capacidade também tenham consciência proporcional de sua responsabilidade.

A inteligência oferece os meios.

A moralidade orienta seu uso.

A autoridade amplia a responsabilidade.

E o livre-arbítrio permite escolher.

Talvez seja essa a resposta mais profunda para a inquietação diante de um mundo em que, muitas vezes, a mentira parece vencer: o cenário de hoje não é necessariamente o destino final da humanidade.

O progresso moral é lento, mas não está parado.

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E, enquanto aguardamos que grandes estruturas se transformem, existe uma transformação que está ao alcance de cada um: não permitir que aquilo que condenamos no mundo encontre espaço dentro de nós.

Porque a sociedade que desejamos construir amanhã dependerá das pessoas que estamos formando hoje.

E, para Kardec, o futuro da humanidade não estará simplesmente nas mãos dos mais inteligentes, dos mais ricos ou dos mais poderosos, mas daqueles que conseguirem unir inteligência para compreender, moralidade para escolher e responsabilidade para utilizar o poder em benefício do próximo.

Leia também: Instinto e Inteligência à luz do Espiritismo

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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