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Mediunidade: nosso sexto sentido e a percepção do mundo espiritual

                          

Enxergar, ouvir, tocar, sentir sabores e aromas são experiências que nos conectam ao mundo físico. Mas a existência humana pode perceber muito além daquilo que os cinco sentidos conseguem registrar. Para a Doutrina Espírita, a mediunidade é uma faculdade natural que amplia nossa percepção da vida e do mundo espiritual.

Enxergamos o mundo pelos olhos, ouvimos pelos ouvidos, percebemos os sabores pela língua, os aromas pelo olfato e o contato, a temperatura e a pressão por meio do tato. Os cinco sentidos físicos são portas pelas quais estabelecemos contato com a realidade que nos cerca.

Mas será que tudo o que existe pode ser percebido pelos sentidos do corpo?

Para a Doutrina Espírita, não.

Existe no ser humano uma faculdade que amplia suas possibilidades de percepção para além dos limites dos órgãos físicos: a mediunidade. Podemos compreendê-la como uma espécie de sexto sentido, uma faculdade que permite ao ser humano estabelecer relações com dimensões da existência que não são captadas diretamente pelos sentidos físicos.

E há um aspecto importante nessa compreensão: a mediunidade não seria um privilégio concedido a alguns indivíduos considerados especiais. Ela faz parte da própria natureza humana e acompanha o desenvolvimento dos seres, independentemente de aceitarem ou não sua existência.

A mediunidade não é sinônimo de evolução moral

Em O Livro dos Médiuns, os Espíritos esclarecem a Kardec: “A faculdade, propriamente dita, relaciona-se com o organismo; é independente da moral.” A afirmação é fundamental porque impede uma associação equivocada entre mediunidade e superioridade espiritual.

Kardec desenvolve essa ideia no capítulo XX, item 226, ao explicar que o desenvolvimento da faculdade mediúnica não está na razão do desenvolvimento moral do médium. A faculdade propriamente dita relaciona-se com o organismo e é independente da moral. Outra coisa, entretanto, é o uso que se faz dela, que poderá ser mais ou menos bom conforme as qualidades morais daquele que a possui.

Essa distinção muda completamente a maneira de compreender a mediunidade.

Uma pessoa pode possuir uma sensibilidade mediúnica bastante desenvolvida e, ao mesmo tempo, apresentar imperfeições morais. A faculdade não transforma automaticamente o médium em alguém melhor. Ela é uma possibilidade de percepção e intercâmbio; seu direcionamento dependerá da pessoa que a utiliza.

É por isso que mediunidade e moralidade precisam ser analisadas separadamente, mas nunca dissociadas quando falamos de responsabilidade.

Imagine, por exemplo, alguém que utiliza sua faculdade mediúnica para obter vantagens financeiras, alimentar a curiosidade, criar dependência ou interferir nas decisões de outras pessoas. A existência da faculdade não desaparece porque o seu uso é inadequado. O problema está justamente na finalidade e na qualidade do intercâmbio estabelecido.

A sintonia espiritual também entra nessa equação.

Quem cultiva pensamentos de vaidade, domínio, interesse pessoal ou exploração não estará necessariamente em sintonia com Espíritos elevados apenas porque possui mediunidade. As afinidades espirituais estão relacionadas ao padrão mental e moral que cultivamos.

Por isso, uma orientação apresentada como “espiritual” pode, dependendo da fonte e da condição do médium, estimular medo, dependência ou submissão, chegando a interferir no livre-arbítrio de quem procura auxílio.

A mediunidade pode ser natural; o seu uso é uma escolha moral.

Quando os sentidos se ampliam

Estou lendo atualmente A Imensidão dos Sentidos, de Francisco do Espírito Santo Neto, pelo Espírito Hammed, e um trecho da obra chamou especialmente minha atenção.

O autor apresenta o exemplo de Michelangelo e sua famosa escultura de Davi. Conta-se que, diante de um enorme bloco de mármore de Carrara, o artista teria trabalhado com cinzel e martelo como se apenas retirasse da pedra aquilo que estava sobrando. Simbolicamente, Michelangelo afirmava que não havia criado Davi: havia apenas libertado da pedra a figura que já estava escondida dentro dela.

Estátua de Davi de Michelangelo exposta em Florença

A imagem é extraordinária para refletirmos sobre a sensibilidade.

Desenvolver a percepção pode significar justamente aprender a identificar aquilo que nossos sentidos comuns não conseguem revelar imediatamente. A beleza já estava no mármore; era necessário retirar o excesso para que pudesse ser percebida.

Hammed utiliza essa perspectiva para refletir sobre a capacidade humana de captar dimensões invisíveis da existência e revelar aquilo que permanece oculto aos sentidos físicos.

É nesse sentido que podemos compreender a mediunidade como um sexto sentido: não como algo mágico ou sobrenatural, mas como uma faculdade que amplia os recursos de percepção do ser humano.

Sensação, percepção e consciência

Os cinco sentidos físicos trabalham de maneira integrada. Quando o corpo recebe ondas de calor, os olhos recebem ondas de luz ou o sistema auditivo recebe ondas sonoras, essas informações chegam aos centros nervosos por meio dos órgãos sensoriais e produzem sensações.

A percepção, porém, representa algo além.

Ela envolve a compreensão e a interpretação do conjunto de sensações e impressões que experimentamos em determinado momento. É pela percepção que a mente organiza aquilo que recebe e atribui significado à experiência.

Quanto mais exercitamos nossa capacidade de perceber, maior pode ser nossa compreensão dos fenômenos que acontecem também em nosso universo interior.

Isso é particularmente importante para quem deseja compreender a mediunidade.

A criatura humana é um ser que pensa. Nossas experiências, sensações e percepções constituem um verdadeiro arquivo mental. Nossos pensamentos, emoções, lembranças e impressões participam da maneira como interpretamos aquilo que acontece conosco.

Por isso, não basta conhecer um fenômeno apenas de fora para dentro. É preciso vivenciar, observar, refletir e incorporar o conhecimento à própria realidade.

Conhecimento sem transformação permanece apenas informação.

O objetivo do desenvolvimento espiritual é justamente fazer com que o ser humano avance da simples experiência para a consciência.

Mediunidade exige sintonia e discernimento

No exercício da faculdade mediúnica, a sensibilidade precisa ser acompanhada de educação.

Sentir mais não significa necessariamente compreender melhor.

É necessário aprender a distinguir aquilo que vem do próprio universo íntimo daquilo que pode ter origem espiritual. Pensamentos, emoções, desejos, memórias e imaginação podem participar da experiência mediúnica. Por isso, quanto maior a sensibilidade, maior também deve ser a capacidade de discernimento.

Nesse processo, a meditação pode desempenhar papel importante. Ao reduzir o excesso de estímulos e desenvolver a atenção sobre os próprios pensamentos e emoções, aprendemos a observar melhor nossa intimidade. A concentração favorece uma percepção mais lúcida e pode ajudar o médium a reconhecer seus próprios conteúdos antes de atribuí-los automaticamente à influência espiritual.

É um exercício de autoconhecimento.

Joanna de Ângelis no livro Otimismo, psicografia do nosso querido Divaldo Franco, apresenta orientações valiosas para que o médium se preserve diante de influências espirituais perturbadoras. Entre elas estão a discrição, o burilamento pessoal, o estudo contínuo, a meditação, a introspecção e o cuidado com informações e notícias deprimentes.

Também recomenda comedimento no falar, no agir e no auxiliar.

São cuidados aparentemente simples, mas profundamente relacionados à qualidade da sintonia espiritual.

O médium precisa ainda reconhecer a própria condição sem alimentar a fantasia de ser um missionário ou alguém privilegiado. A mediunidade não deve ser utilizada para conquistar prestígio, ampliar círculos de amizade ou criar uma imagem de superioridade.

A palavra já indica sua função: médium é meio.

A finalidade não está em exaltar o medianeiro, mas em favorecer o progresso dele e daqueles que possam ser beneficiados pelo intercâmbio entre os dois planos da vida.

O risco da fascinação

Entre os obstáculos que exigem maior atenção está a fascinação, uma das formas de obsessão estudadas por Kardec em O Livro dos Médiuns.

Na fascinação, a influência espiritual pode levar o médium a aceitar determinadas ideias sem submetê-las ao necessário exame crítico. O problema é que o indivíduo pode acreditar estar recebendo uma orientação elevada justamente quando sua capacidade de discernimento está sendo comprometida.

Por isso, nem toda comunicação espiritual deve ser aceita simplesmente porque parece extraordinária.

O médium precisa estudar. Precisa observar. Precisa comparar. Precisa manter a razão ativa.

A espiritualidade superior não exige que abandonemos o discernimento.

É justamente por isso que oração, estudo, meditação, autoconhecimento e vigilância caminham juntos no desenvolvimento mediúnico.

A oração aproxima-nos de Deus. A meditação favorece o recolhimento. O estudo amplia o discernimento. O autoconhecimento revela nossas próprias fragilidades. E a vigilância impede que pensamentos e influências inadequadas encontrem espaço para crescer.

Um sexto sentido a serviço da vida

A mediunidade não existe para nos colocar acima dos outros. Não é medalha, título ou certificado de evolução espiritual.

É uma faculdade.

E, como toda faculdade, precisa ser educada.

A assistência mediúnica aos Espíritos sofredores pode ser comparada ao trabalho de um médico diante de um hospital. Diante da dor, não cabem curiosidade, espetáculo ou vaidade. São necessários conhecimento, equilíbrio, respeito e disposição para auxiliar.

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Quanto maior a sensibilidade, maior deve ser a responsabilidade.

Talvez desenvolver nosso “sexto sentido” seja também aprender a olhar para dentro com mais lucidez. Porque perceber o invisível não significa abandonar a realidade, mas ampliar a compreensão sobre ela.

Os cinco sentidos nos apresentam o mundo material. A percepção amplia aquilo que recebemos. A consciência interpreta. E a mediunidade, quando educada e colocada a serviço do bem, pode abrir novas possibilidades de compreensão sobre a vida e sobre nós mesmos.

No fim, a verdadeira questão não é simplesmente “o que consigo perceber?”

É perguntar:

“O que estou fazendo com aquilo que consigo perceber?”

É nessa resposta que a faculdade mediúnica deixa de ser apenas uma capacidade e passa a representar uma oportunidade de crescimento espiritual.

Leia também: Percepção, sintonia e Concentração mental

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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