Entre o Orgulho e a humildade: a escolha que define destinos
No capítulo 7 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “Bem-aventurados os pobres de espírito”, encontramos um dos ensinamentos mais profundos e ao mesmo tempo mais mal compreendidos do Cristo. Quando Jesus declara: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, Ele não está exaltando a ignorância intelectual, nem incentivando a falta de esforço pelo conhecimento. Ao contrário, está nos convidando a refletir sobre a humildade — essa virtude silenciosa que sustenta todas as demais.
Ser “pobre de espírito” é ser simples de coração. É não se considerar acima de ninguém. É compreender que, diante de Deus, todos somos aprendizes em diferentes estágios da jornada evolutiva. A tendência humana, entretanto, é outra: é a de se crer acima de tudo e de todos. O orgulho é uma sombra que nos acompanha desde as experiências mais primitivas. Ele se manifesta quando acreditamos que sabemos mais, que somos melhores, que nossa dor é maior, que nossa opinião é superior. Muitas vezes ele se disfarça de firmeza, de liderança, de “personalidade forte”. Mas, no fundo, é apenas insegurança que busca se afirmar.
Jesus é claro ao afirmar que ninguém é admitido no Reino dos Céus sem simplicidade de coração e humildade de espírito. Isso significa que não é o título, não é a posição social, não é o conhecimento acumulado, nem mesmo a atuação religiosa que nos garante elevação espiritual. É o estado íntimo. É a disposição sincera de aprender, de reconhecer erros, de servir sem buscar aplausos.
“Quem se eleva será rebaixado; e quem se humilha será exaltado.” Essa lei moral é consequência natural da harmonia divina. O orgulhoso pode até ocupar temporariamente os primeiros lugares da Terra, mas interiormente permanece inquieto, insatisfeito e isolado. Vive comparando-se, competindo, defendendo-se. O humilde, por sua vez, não procura o primeiro lugar. Não precisa se impor. Ele sabe que cada experiência tem seu tempo e que Deus concede a cada um aquilo que é necessário para o seu progresso.
O ensinamento é direto: não procureis o primeiro lugar sobre a Terra, nem vos coloqueis acima dos outros, se não quereis ser obrigados a descer. Procurai ser mais humilde e mais modesto, porque Deus saberá vos dar um lugar mais elevado no Céu, se merecerdes. Essa frase contém uma verdade simples: a verdadeira elevação não é conquistada à força; é concedida pelo mérito moral. E o mérito nasce do trabalho silencioso, da disciplina íntima, da caridade sem exibicionismo.
Outro ponto profundo do capítulo é quando Jesus agradece ao Pai por ter ocultado os mistérios aos sábios e entendidos e revelado aos simples e ignorantes. Isso não significa desprezo pelo saber. Pelo contrário, significa que o conhecimento sem humildade se transforma em instrumento de vaidade. O saber que não se curva diante da verdade maior torna-se barreira. Já o coração simples, mesmo que não possua grande cultura, está aberto, receptivo, pronto para compreender o que realmente importa.
Nas instruções dos Espíritos, especialmente na mensagem sobre “O orgulho e a humildade”, vemos que o orgulho é a fonte de muitas quedas morais. Ele gera inveja, ressentimento, intolerância e divisão. O orgulhoso raramente reconhece seus próprios erros. Prefere apontar falhas alheias a admitir as próprias imperfeições. Quando contrariado, revolta-se. Quando não é reconhecido, sente-se injustiçado. Vive na expectativa de destaque.
A humildade, por outro lado, não é fraqueza. Não é submissão cega. Não é aceitar abusos ou se deixar manipular. A humildade verdadeira perdoa, sim — quantas vezes forem necessárias — mas não é ingenuidade. Perdoar não significa permitir que o outro continue errando às nossas custas. Significa libertar o coração do rancor, mantendo a consciência lúcida. O humilde não se coloca acima, mas também não se diminui de forma doentia. Ele sabe seu valor, mas entende que esse valor é dom de Deus e oportunidade de serviço.
Há uma diferença enorme entre humildade e passividade. A humildade é força moral equilibrada. É firmeza sem arrogância. É convicção sem desprezo. É capacidade de ensinar sem humilhar. O homem verdadeiramente humilde pode ocupar posições de liderança, pode ter grande inteligência, pode falar em público, pode orientar multidões — mas tudo isso com espírito de servidor.
O capítulo também nos convida a refletir sobre a missão do homem inteligente na Terra. A inteligência é ferramenta divina para o progresso coletivo. Porém, quanto maior a capacidade intelectual, maior a responsabilidade moral. Se o inteligente se deixa dominar pelo orgulho, torna-se instrumento de divisão. Se se reveste de humildade, transforma-se em farol para muitos. O verdadeiro sábio é aquele que compreende que ainda tem muito a aprender.
Quando Jesus pergunta: “Quem será o maior no Reino dos Céus?”, Ele responde colocando uma criança como exemplo. A criança simboliza a confiança, a simplicidade, a ausência de pretensão. Não se trata de infantilidade, mas de pureza de intenção. O maior no Reino dos Céus é aquele que serve mais, que ama mais, que se esquece mais de si em favor do bem.
Esse ensinamento é extremamente atual, inclusive dentro das casas espíritas. Não é raro encontrarmos trabalhadores e médiuns que, após certo tempo de atuação, deixam-se envolver pelo orgulho. Passam a acreditar que são indispensáveis, que possuem comunicação superior, que têm missão especial acima dos demais. O médium que se enche de vaidade começa, pouco a pouco, a perder a sintonia com os benfeitores espirituais. A mediunidade é instrumento sagrado, mas não pertence ao médium — é concessão divina para o serviço.
Quando o orgulho se instala, a espiritualidade superior naturalmente se afasta, não por punição, mas por incompatibilidade vibratória. O médium orgulhoso passa a agir por si mesmo, e não como instrumento. A consequência é o desequilíbrio, a perda da serenidade, e muitas vezes a queda moral. Já o médium humilde compreende que é apenas intermediário. Não se julga superior por servir; sente-se grato pela oportunidade.
As consequências do orgulho são isolamento, sofrimento íntimo e estagnação espiritual. Os benefícios da humildade são paz interior, abertura para o aprendizado, harmonia nos relacionamentos e crescimento contínuo. A humildade aproxima, une, fortalece equipes, inspira confiança. O orgulho separa, cria disputas, gera desconfiança.
Humildade é reconhecer que todos estamos em processo. Que hoje podemos estar orientando e amanhã precisaremos ser orientados. Que erramos, aprendemos, recomeçamos. É compreender que ninguém é maior nem menor aos olhos de Deus — todos somos filhos amados em diferentes estágios.
Se quisermos realmente alcançar o Reino dos Céus — que começa dentro de nós — precisamos abandonar a necessidade de superioridade. Precisamos trocar o desejo de destaque pela alegria do serviço. Precisamos substituir a competição pela cooperação.
Ser humilde não é ser pequeno. É ser grande o suficiente para não precisar parecer maior do que ninguém. É confiar que Deus vê, sabe e recompensa no tempo certo. É caminhar com simplicidade de coração, sabendo que toda verdadeira elevação começa pelo abaixar-se interior diante da lei divina.
E, no fim, é lembrar que o lugar mais alto no Céu pertence àquele que, na Terra, escolheu amar e servir sem orgulho.
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo
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