Penitência: o caminho da regeneração do homem e da humanidade
“Fazei penitência, porque está próximo o reino dos céus.” A advertência de João Batista, apresentada no Evangelho, pode parecer, à primeira vista, um convite ao sofrimento, à privação ou às práticas religiosas exteriores. Entretanto, à luz do Espiritismo e da reflexão apresentada por Eliseu Rigonatti em O Evangelho dos Humildes, no capítulo dedicado a João Batista, compreendemos que a penitência ensinada pelo precursor de Jesus possui um significado muito mais profundo: é o esforço sincero de transformação do próprio Espírito.
João Batista foi um poderoso médium inspirado, transmissor das mensagens do Alto, preparando os caminhos para a chegada de Jesus e para o início de uma nova etapa no processo de regeneração da humanidade. Sua mensagem era simples e direta: para aproximar-se do Reino dos Céus, não bastavam aparências religiosas. Era necessário mudar.
Mas mudar o quê?
O homem poderia fazer longas orações, oferecer donativos, realizar peregrinações, jejuar, construir templos, fazer promessas e cumprir inúmeras formalidades exteriores. Tudo isso, porém, perderia o sentido se, dentro dele, continuassem o orgulho, o egoísmo, a avareza, a vingança, o rancor, a hipocrisia e os vícios.
A verdadeira penitência não está na aparência. Está na reforma do caráter.
É por isso que a mensagem de João Batista continua tão atual. Penitenciar-se é reconhecer o erro, arrepender-se sinceramente e, principalmente, tomar a decisão de não permanecer no mesmo caminho. Não basta dizer “eu errei”. É preciso perguntar: o que estou fazendo para reparar meu erro e para não cometê-lo novamente?
Se prejudicamos alguém, devemos procurar reparar. Se roubamos, devemos restituir. Se ofendemos, devemos buscar a reconciliação. Se somos dominados pelo rancor, precisamos aprender a perdoar. Se somos orgulhosos, precisamos desenvolver a humildade. Se somos indiferentes diante da necessidade alheia, precisamos aprender a servir.
Essa é uma penitência que não precisa de testemunhas.
É realizada silenciosamente, dentro de nós, todos os dias.
O Espiritismo nos ensina que a evolução espiritual não acontece por meio de fórmulas exteriores, mas pelo aperfeiçoamento moral do Espírito. O Evangelho de Jesus é o roteiro dessa transformação. Ele nos convida a abandonar aquilo que nos prende às paixões inferiores e a desenvolver em nós as virtudes que nos aproximam de Deus.
Existe, portanto, também um jejum que precisamos aprender a fazer.
Não necessariamente o jejum do alimento, mas o jejum das coisas que alimentam nossas imperfeições. Jejuar do orgulho. Jejuar da necessidade de ter sempre razão. Jejuar da maledicência, da inveja, da vingança, da irritação, do desejo de controlar o outro. Jejuar dos excessos e das escolhas que nos escravizam.
Há coisas do mundo que precisamos aprender a deixar para trás, não porque sejam necessariamente más em si mesmas, mas porque, quando nos dominam, impedem nossa liberdade espiritual.
Foi assim que comecei a compreender essa mensagem também na minha própria vida.
Quando comecei a realmente praticar o Evangelho de Jesus, e não apenas a estudá-lo, percebi que a transformação precisava acontecer dentro de mim. Aos poucos, abandonei vícios, paixões inferiores e comportamentos que já não combinavam com aquilo que eu dizia acreditar. Não foi uma mudança produzida por uma cerimônia ou por uma fórmula religiosa. Foi consequência do esforço diário de tentar viver aquilo que Jesus ensinou.
Compreendi que não adiantava falar sobre caridade se eu não procurasse ser mais caridoso. Não adiantava falar sobre perdão se continuasse alimentando ressentimentos. Não adiantava estudar o Evangelho se não permitisse que ele modificasse minhas atitudes.
É aí que encontramos o verdadeiro sentido do “batismo” apresentado por João.
A água pode limpar o corpo, mas é o arrependimento sincero, acompanhado do firme propósito de mudança, que começa a limpar o Espírito. O chamado “batismo de fogo”, na interpretação de Rigonatti, representa justamente esse esforço de transformação: vencer as paixões inferiores, abandonar os vícios, superar o orgulho, substituir o egoísmo pela fraternidade e transformar o homem velho em um novo homem.
O avaro que aprende a repartir. O hipócrita que procura ser sincero. O orgulhoso que se torna humilde. O vingativo que aprende a perdoar. O viciado que encontra forças para libertar-se. O homem que, mesmo diante das dificuldades, aprende a confiar em Deus e a bendizer Sua vontade.
Esse é o verdadeiro batismo de transformação.
E, quando a mediunidade se manifesta, surge também uma responsabilidade ainda maior. Rigonatti apresenta o “batismo no Espírito Santo” relacionado à mediunidade, entendida como instrumento colocado a serviço da tarefa espiritual. Mas receber a mediunidade não significa receber um privilégio; significa assumir uma responsabilidade.
O médium que compreende o Evangelho é chamado ao estudo, à disciplina, à dedicação e ao serviço. Precisa buscar sua própria reforma íntima para que o instrumento mediúnico seja utilizado com responsabilidade na seara do Cristo. A mediunidade não deve alimentar vaidade ou superioridade, mas servir à evangelização, ao consolo, ao esclarecimento e ao auxílio ao próximo.
Por isso, estudar, trabalhar e ajudar são também frutos dessa penitência.
Quanto mais aprendemos, maior é nossa responsabilidade de multiplicar o conhecimento recebido. Se o Evangelho nos transformou, precisamos permitir que essa transformação alcance também aqueles que caminham conosco. Não para nos colocarmos acima de ninguém, mas para estendermos a mão a quem ainda enfrenta as mesmas dificuldades que um dia enfrentamos.
A regeneração da humanidade começa justamente aí: na regeneração de cada indivíduo.
Não podemos esperar que o mundo se transforme enquanto permanecemos os mesmos. A humanidade será renovada à medida que os homens renovarem seus sentimentos, seus pensamentos e suas atitudes.
João Batista anunciou a chegada de Jesus. E Jesus trouxe à humanidade a lei maior do amor. O verdadeiro culto a Deus deixou de depender das formalidades exteriores e passou a acontecer no santuário da consciência.
Por isso, fazer penitência hoje é olhar para dentro.
É reconhecer aquilo que ainda precisa ser transformado. É abandonar os vícios que nos escravizam. É fazer jejum das paixões que nos afastam de Deus. É reparar os erros possíveis. É perdoar. É servir. É estudar. É trabalhar pelo bem. É praticar o Evangelho quando ninguém está olhando.
A penitência verdadeira não é uma punição imposta por Deus.
É o esforço consciente do Espírito para libertar-se daquilo que ainda o impede de ser verdadeiramente livre.
E talvez esse seja um dos maiores ensinamentos de João Batista para os nossos dias: o Reino dos Céus não começa em algum lugar distante. Ele começa dentro de nós, quando finalmente decidimos fazer aquilo que o Cristo nos ensinou.
Mudar. Servir. Amar. E perseverar na própria regeneração.
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo



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