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Reflexões e estudos da Doutrina Espírita, baseado nas obras de Allan Kardec
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A Seara Espírita e a Responsabilidade de Servir
A Seara Espírita é ampla. Há lugar para aquele que chega pela primeira vez, para quem procura uma palavra de consolo, para quem deseja conhecer a Doutrina, para aquele que participa das reuniões públicas e também para quem, depois de algum tempo de estudo e amadurecimento, sente no coração o desejo de servir mais diretamente.
Ninguém deve ser constrangido a fazer aquilo para o qual ainda não se sente preparado. A Doutrina Espírita não trabalha pela imposição. O convite é sempre para o esclarecimento, para a transformação interior e para o exercício consciente do bem.
Mas existe uma diferença importante entre frequentar uma casa espírita e assumir um compromisso com ela.
Quando alguém decide participar de um grupo de estudos, ingressar em um curso de desenvolvimento mediúnico, integrar uma equipe de trabalho ou assumir determinada tarefa dentro de uma instituição, está fazendo uma escolha. E toda escolha consciente pressupõe responsabilidade.
Não se trata de exigir que alguém abandone suas obrigações familiares, seu trabalho ou sua vida pessoal em nome da casa espírita. Muito menos de medir a espiritualidade de uma pessoa pela quantidade de horas que ela permanece dentro de uma instituição. Cada um possui sua realidade, suas limitações, seus compromissos e seu próprio momento evolutivo.
A questão é outra: se escolhemos estar, precisamos estar de verdade.
O estudo espírita, por exemplo, não deveria ser encarado como uma aula qualquer da qual participamos apenas quando é conveniente. Estudar a Doutrina é assumir o compromisso de conhecê-la. É ler, refletir, questionar, comparar ideias, procurar compreender os ensinamentos e, principalmente, buscar aplicá-los à própria vida.
Não é necessário ler dezenas de páginas todos os dias. Às vezes, alguns poucos parágrafos lidos com atenção podem produzir mais frutos do que muitas páginas percorridas sem reflexão. O importante é criar intimidade com as obras que fundamentam o pensamento espírita e transformar o conhecimento em instrumento de renovação.
Quem decide desenvolver a mediunidade assume um compromisso ainda maior consigo mesmo.
A mediunidade não deve ser tratada como curiosidade, passatempo ou experiência extraordinária. É uma faculdade que, dentro da compreensão espírita, deve estar vinculada ao estudo, à disciplina, à responsabilidade e ao propósito de servir.
Por isso, a assiduidade possui um significado que vai muito além de simplesmente "não faltar".
Comparecer regularmente às reuniões significa respeitar o próprio compromisso, o grupo do qual fazemos parte e o trabalho que está sendo realizado. Naturalmente, existem situações que justificam uma ausência. A vida apresenta imprevistos, enfermidades, compromissos familiares e profissionais que não podem ser ignorados. Mas uma coisa é faltar porque realmente não foi possível comparecer; outra é transformar qualquer dificuldade em justificativa permanente para não cumprir aquilo que voluntariamente assumimos.
Quem se dispõe ao trabalho mediúnico precisa compreender que existe uma equipe envolvida. Não estamos sozinhos. O trabalho de uma casa espírita depende da colaboração de muitas pessoas, muitas vezes em tarefas que sequer aparecem para quem chega.
Existe quem receba as pessoas, quem organize a sala, quem prepare a reunião, quem oriente, quem trabalhe na assistência, quem aplique o passe, quem cuide da limpeza, quem estude, quem coordene uma atividade e quem simplesmente permaneça disponível para aquilo que surgir.
Tudo isso também é trabalho espiritual.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores lições da Seara: servir não significa apenas ocupar uma função que consideramos importante. Significa oferecer aquilo que podemos oferecer.
Nem todos possuem dinheiro para contribuir com uma instituição. Mas quase todos podem, em algum momento, oferecer algo igualmente precioso: tempo, disposição, conhecimento, presença, atenção, uma palavra amiga ou algumas horas de trabalho.
Uma casa espírita não se sustenta apenas pelas contribuições financeiras. Ela também precisa de pessoas dispostas a abrir mão de algumas horas da própria semana para colaborar. Uma vez por semana, por exemplo, pode representar muito quando muitas pessoas se unem em torno do mesmo propósito.
Isso não significa que todos devam trabalhar em uma casa espírita. Há pessoas que simplesmente não possuem disponibilidade. Outras ainda estão conhecendo a Doutrina. Outras preferem, legitimamente, permanecer como frequentadoras das reuniões públicas. E não há nada de errado nisso.
Talvez, naquele momento, essa seja exatamente a posição que devem ocupar.
É possível frequentar uma sessão pública quando a rotina permitir, ouvir uma palestra, tomar um passe, participar de uma atividade e retornar para casa. Não existe demérito algum nisso.
O problema começa quando transformamos uma escolha em compromisso e, depois, tratamos o compromisso como se fosse apenas uma possibilidade.
Se ainda não estamos preparados para assumir uma tarefa, é melhor reconhecer isso com sinceridade. Se não temos tempo para participar de determinado trabalho, talvez seja mais coerente não assumir a função. Se ainda não sentimos disposição para o estudo mediúnico, podemos continuar frequentando as reuniões públicas, aprendendo no nosso ritmo e aguardando o momento adequado.
O que não combina com a proposta espírita é assumir algo sem a disposição de cuidar daquilo que assumimos.
Em Conduta Espírita, pelo Espírito André Luiz, através de Waldo Vieira, encontramos orientações que valorizam justamente essa postura de dedicação, disciplina e fidelidade ao dever. O trabalhador da Seara é chamado a conciliar suas obrigações familiares e profissionais com o serviço espiritual, procurando superar, dentro do possível, os obstáculos que possam afastá-lo das tarefas assumidas. A obra também ressalta a importância da assistência aos necessitados, do contato constante com os livros espíritas e da busca pela instrução e pelo aperfeiçoamento.
Essa dedicação, entretanto, não deve nascer da obrigação externa. Deve nascer de uma disposição interior.
Porque o verdadeiro trabalho espírita não pode ser sustentado apenas pelo "tenho que ir". É necessário que exista algum entusiasmo íntimo, algum desejo sincero de aprender, de colaborar e de ser útil.
Também por isso, a educação espírita não pode ser reduzida ao acúmulo de informações. Os valores que ela procura desenvolver passam pelo respeito, pela responsabilidade, pela solidariedade, pela disciplina, pela fraternidade e pela capacidade de transformar conhecimento em atitude. Como aborda César Soares dos Reis em Fundamentos da Educação – Uma Visão Espírita, educar-se espiritualmente significa trabalhar valores que contribuam para a formação integral do ser.
E talvez seja essa a grande diferença entre estar em uma casa espírita e fazer parte de sua Seara.
Fazer parte não significa ser melhor do que quem apenas frequenta. Não significa ter mais merecimento, mais conhecimento ou maior evolução espiritual. Significa apenas que, em determinado momento, escolhemos oferecer alguma coisa de nós mesmos ao trabalho coletivo.
E, quando fazemos essa escolha, é natural que exista empenho.
Não precisamos comparar nossa dedicação com a de ninguém. Cada pessoa tem sua caminhada, seus limites e suas escolhas. O trabalhador sincero não precisa olhar para o lado para saber se está fazendo mais ou menos que o outro.
Ele simplesmente faz aquilo que o coração lhe pede.
Quando encontramos alegria em estudar, estudamos. Quando encontramos satisfação em servir, servimos. Quando podemos dedicar algumas horas à assistência, dedicamos. Quando somos chamados a aprender uma tarefa nova, procuramos nos preparar. Quando assumimos um compromisso, fazemos o possível para honrá-lo.
Não porque alguém está nos cobrando.
Mas porque queremos estar ali.
A Seara Espírita não precisa de pessoas perfeitas. Precisa de pessoas sinceras, dispostas a aprender e a colaborar dentro de suas possibilidades.
E talvez seja essa a melhor forma de compreender o compromisso espírita: não como uma obrigação que nos pesa, mas como uma oportunidade que nos alegra.
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Se hoje só podemos frequentar uma reunião pública, que frequentemos com o coração aberto.
Se podemos estudar, que estudemos com seriedade.
Se podemos trabalhar, que trabalhemos com dedicação.
Se podemos contribuir financeiramente, que contribuamos.
Se podemos oferecer algumas horas da semana para auxiliar uma instituição, que ofereçamos.
E se ainda não podemos fazer nada disso, que não haja culpa. Continuemos aprendendo, observando e preparando o coração.
Porque chegará o momento em que o desejo de servir deixará de parecer um sacrifício.
Será simplesmente uma consequência natural daquilo que começamos a compreender.
Na Seara Espírita, ninguém é obrigado a servir. Mas aquele que escolhe servir encontra, no compromisso, uma das mais belas formas de viver aquilo que aprende.
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo
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