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A grande obra espírita: a reconstituição das almas

                         

Quando pensamos na caridade espírita, é comum que nossa primeira lembrança seja a do auxílio material: o alimento que chega à mesa, a roupa que aquece, o medicamento que socorre, o amparo oferecido àquele que atravessa uma dificuldade financeira. Tudo isso é legítimo, necessário e profundamente cristão. A Doutrina Espírita jamais nos convida à indiferença diante da dor material. Ao contrário, ensina-nos a reconhecer no necessitado um irmão e a fazer pelo outro aquilo que gostaríamos que fosse feito por nós.

Entretanto, existe uma dimensão da caridade que talvez seja ainda mais profunda e que constitui, nas palavras de Raul Teixeira, o grande trabalho espírita por excelência: a reconstituição das almas.

No livro Para uma Vida Melhor na Terra, Raul Teixeira nos chama a atenção para a finalidade maior do trabalho espírita: levantar os indivíduos que caíram nas estradas morais do mundo, auxiliando-os a recuperar as próprias forças e a reencontrar o sentido de sua caminhada. É uma tarefa que não se limita a aliviar momentaneamente uma necessidade. É uma tarefa de reconstrução interior.

Porque há pessoas que têm fome de pão, mas também existem aquelas que têm fome de esperança. Há quem necessite de uma cesta básica, mas há também quem precise aprender novamente a confiar em si mesmo. Existem pessoas que precisam de um abrigo, enquanto outras necessitam encontrar dentro de si um lugar de paz. E muitas vezes essas necessidades se encontram na mesma pessoa.

Por isso, não podemos reduzir o trabalho espírita à quantidade de obras materiais que uma instituição consegue manter. Um Centro Espírita que não possui uma creche, um hospital, um lar para idosos ou outra obra assistencial de grande porte não deixa, por isso, de cumprir uma tarefa de enorme importância. Quando abre suas portas para ensinar, esclarecer, consolar e orientar, está trabalhando diretamente sobre aquilo que o Espiritismo pretende transformar: o Espírito imortal.

A grande obra espírita é ajudar o ser humano a compreender a própria existência.

É ensiná-lo a olhar para a vida para além das aparências imediatas. É mostrar que somos Espíritos em processo de evolução, temporariamente revestidos de um corpo, atravessando experiências que podem contribuir para nosso crescimento. É ajudá-lo a compreender o sofrimento sem cair no desespero, a enfrentar as próprias imperfeições sem culpa paralisante e a perceber que ninguém está condenado a permanecer eternamente prisioneiro dos mesmos erros.

É, sobretudo, ensinar o homem a se levantar.

Essa experiência se torna muito evidente no cotidiano de uma Casa Espírita. No Centro Espírita que frequento e onde trabalho como médium vidente, recebemos pessoas que chegam em busca de diferentes formas de auxílio. Muitas delas já frequentam a Casa, participam dos estudos e conhecem, em alguma medida, os princípios da Doutrina Espírita. Conhecem a reencarnação, o livre-arbítrio, a lei de causa e efeito, a imortalidade da alma e os ensinamentos do Evangelho.

Mas conhecer não significa, necessariamente, conseguir transformar.

Muitas vezes, o indivíduo sabe aquilo que precisa fazer, mas ainda encontra enormes dificuldades para fazê-lo. Compreende que precisa controlar determinada paixão, mas não consegue libertar-se dela. Sabe que precisa perdoar, mas ainda permanece preso à mágoa. Entende que deve modificar determinados comportamentos, mas continua repetindo os mesmos padrões. Sabe que o sofrimento pode trazer aprendizado, mas ainda não consegue compreendê-lo ou atravessá-lo com equilíbrio.

É nesse ponto que percebemos a grandeza da educação espiritual.

Não basta entregar ao indivíduo uma resposta pronta. É necessário ajudá-lo a escutar a própria consciência, compreender suas escolhas, reconhecer suas fragilidades e descobrir dentro de si os recursos para modificar-se.

A Casa Espírita, então, torna-se um espaço de reconstituição.

Não porque faça milagres exteriores, mas porque oferece conhecimento, acolhimento, esclarecimento e oportunidades para que cada pessoa possa reconstruir a própria caminhada.

Também recebemos, nas sessões da Câmara de Vidência, pessoas que muitas vezes chegam sem nenhum conhecimento da Doutrina Espírita. Algumas procuram a Casa justamente porque estão vivendo situações que não conseguem compreender. Dentro da compreensão espírita, podem ser identificadas influências espirituais que são entendidas como processos de obsessão ou de sintonia entre Espíritos em condições semelhantes.

A própria Doutrina Espírita nos ensina a importância da vigilância sobre nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Na visão espírita, nossa faixa mental participa de nossas companhias espirituais e de nossas experiências, e determinados padrões de pensamento e de sentimento podem favorecer processos de sintonia.

Mas é justamente aqui que precisamos compreender a finalidade do atendimento espírita.

Não se trata simplesmente de dizer a alguém que existe um "obsessor" e colocá-lo como responsável por todos os seus problemas. Se fizéssemos isso, retiraríamos da própria pessoa a possibilidade de transformação.

O verdadeiro trabalho espírita vai muito além de identificar uma possível influência espiritual.

É preciso orientar. Acalentar. Esclarecer. Mostrar que a mudança começa também dentro de nós. Ensinar que o Evangelho de Jesus não é apenas uma mensagem para ser admirada, mas um caminho para ser vivido.

Muitas vezes, a pessoa chega procurando uma explicação para aquilo que está acontecendo fora dela e encontra, no ensinamento espírita, um convite para olhar para dentro.

E esse talvez seja um dos momentos mais importantes da reconstituição da alma.

Porque o Espiritismo não pretende criar pessoas eternamente dependentes da Casa Espírita, do trabalhador ou do atendimento. Seu objetivo é oferecer instrumentos para que o indivíduo caminhe com as próprias pernas. A assistência espírita deve levantar, não acomodar; esclarecer, não infantilizar; fortalecer, não criar dependência.

Por isso, o auxílio material e o auxílio espiritual não são adversários. Eles se completam quando compreendidos à luz da verdadeira caridade.

Uma pessoa faminta precisa de alimento. Mas, depois de alimentada, talvez precise também de orientação para reconstruir sua vida. Uma família pode necessitar de uma cesta básica, mas também pode precisar de educação, oportunidades, esclarecimento e fortalecimento moral. Socorrer a necessidade imediata é caridade; contribuir para que o ser humano conquiste condições de superar suas dificuldades é também caridade.

O propósito não é conservar indefinidamente pessoas em uma condição de dependência em nome da assistência. O propósito é ajudá-las a crescer.

Essa é uma diferença fundamental.

A caridade espírita não deve enxergar o necessitado apenas como alguém a quem precisamos dar alguma coisa. Deve enxergá-lo como um Espírito em evolução, portador de possibilidades, talentos, experiências e potencialidades que talvez estejam momentaneamente adormecidas pelas dificuldades da existência.

Reconstituir uma alma é ajudá-la a reencontrar sua dignidade espiritual.

É fazê-la compreender que ela pode mudar.

Que pode recomeçar.

Que seus erros não precisam determinar eternamente seu futuro.

Que suas paixões podem ser educadas.

Que suas dores podem ser compreendidas.

Que seus conflitos podem ser transformados em experiências de aprendizado.

E que sua encarnação possui um propósito.

Talvez essa seja uma das maiores contribuições que uma Casa Espírita pode oferecer ao mundo: não apenas aliviar a dor de alguém, mas ajudá-lo a compreender por que precisa transformar-se e oferecer-lhe instrumentos para que consiga fazê-lo.

A cesta básica termina. O atendimento termina. A reunião termina. A pessoa retorna para sua casa e continua enfrentando a própria vida.

É justamente ali que começa o verdadeiro trabalho.

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Quando o ensinamento recebido durante uma reunião passa a orientar uma escolha. Quando alguém, diante de uma ofensa, decide não alimentar o ressentimento. Quando uma pessoa percebe uma paixão e começa, pouco a pouco, a dominá-la. Quando alguém que sofria diante de uma prova passa a enxergá-la com mais compreensão. Quando aquele que se sentia vítima do destino começa a perceber que possui livre-arbítrio e responsabilidade sobre os caminhos que constrói.

Nesses momentos, uma alma começa a se reconstituir.

E talvez não exista obra material capaz de medir a dimensão desse trabalho silencioso.

Porque reconstruir uma casa é grandioso. Construir um hospital é grandioso. Alimentar centenas de pessoas é grandioso. Mas contribuir para que um ser humano reconstrua a si mesmo é participar de uma transformação que ultrapassa uma existência.

É trabalhar pela eternidade.

É levar o indivíduo a compreender a vida, a vencer a própria ignorância, a educar seus sentimentos e a aproximar-se, pouco a pouco, do homem novo anunciado pelo Evangelho.

Esse é o grande trabalho espírita.

Levantar o que caiu.
Esclarecer o que permanece na ignorância.
Acolher o que sofre.
Fortalecer o que enfraqueceu.
E, acima de tudo, ajudar cada Espírito a reencontrar o caminho de sua própria evolução.

Porque o objetivo do Espiritismo não é simplesmente fazer com que o homem sofra menos.

É ajudá-lo a crescer, levantar-se e alcançar os objetivos de sua reencarnação.

E quando uma Casa Espírita consegue fazer isso, ainda que silenciosamente, sem grandes estruturas e sem grandes aparências, ela está realizando uma das mais profundas formas de caridade: a caridade que não apenas socorre o homem de hoje, mas trabalha para reconstruir o Espírito de amanhã.

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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