Reunião mediúnica: compromisso, preparo e responsabilidade
A reunião mediúnica não é simplesmente uma atividade da casa espírita destinada à comunicação com os Espíritos. Para aqueles que chegam a esse trabalho, ela representa uma etapa de compromisso mais profundo com a Doutrina Espírita, com a própria renovação moral e com o serviço ao próximo.
Depois de conhecer os princípios fundamentais do Espiritismo, estudar o Evangelho e compreender a responsabilidade da mediunidade, o trabalhador começa a participar de um verdadeiro laboratório espiritual. Allan Kardec compara as reuniões mediúnicas a um laboratório porque, assim como ninguém entra em um laboratório sem conhecimento para manipular seus instrumentos e compreender os fenômenos que ali ocorrem, também não se deve ingressar numa reunião mediúnica sem estudo, preparo e discernimento.
Por isso, uma casa espírita que pretende desenvolver um trabalho mediúnico sério precisa oferecer aos seus trabalhadores uma formação contínua. O estudo sistemático da Doutrina Espírita deve constituir a base, seguido pelo estudo específico da mediunidade. E mesmo entre aqueles que concluem essa preparação, nem todos necessariamente estarão destinados a participar de uma reunião mediúnica. A mediunidade ostensiva, por si só, não é suficiente para determinar a aptidão para o trabalho.
É preciso preparo moral, equilíbrio, disciplina e disposição verdadeira para servir.
A reunião mediúnica séria é, nesse sentido, o coroamento da fraternidade construída pelos trabalhadores de uma casa espírita. Ela é fruto da união de propósitos, da sinceridade, da disciplina e da confiança entre aqueles que se colocam à disposição do serviço espiritual. Divaldo Franco destaca a importância desse trabalho ao afirmar que a reunião mediúnica constitui a base de sustentação espiritual da casa espírita. Quando o grupo não encontra equilíbrio, essa desarmonia repercute sobre todo o ambiente espiritual da instituição.
Isso nos ajuda a compreender que uma reunião mediúnica não começa quando o primeiro médium entra em transe. Ela começa muito antes: na forma como cada trabalhador conduz a própria vida.
Mediunidade é compromisso
A faculdade mediúnica ostensiva é uma oportunidade de serviço. Mas oportunidade também significa responsabilidade.
O médium que deseja estar preparado para uma reunião mediúnica precisa buscar o conhecimento profundo da Doutrina Espírita, estudar a mediunidade, compreender a caridade e trabalhar sinceramente pela própria transformação. A oração e a meditação devem fazer parte de sua vida, não apenas dos minutos que antecedem a reunião.
A reforma íntima também não pode ser apenas um conceito estudado nos livros. Ela precisa aparecer nas relações familiares, no trabalho, na maneira de lidar com as dificuldades, na capacidade de perdoar, na vigilância dos pensamentos e no esforço para vencer as próprias imperfeições.
André Luiz no livro Sinal Verde sintetiza essa responsabilidade na expressão: “O uso edifica, as distorções prejudicam.” A mediunidade utilizada para o bem pode transformar-se em instrumento de crescimento e auxílio; utilizada de maneira inadequada, pode produzir desequilíbrios no próprio médium e no grupo.
Não utilizar uma faculdade mediúnica que poderia ser colocada a serviço do bem também pode representar a perda de uma importante oportunidade de aprendizado e serviço. Mas servir não significa buscar fenômenos extraordinários. O verdadeiro aproveitamento da mediunidade está em aprender a sentir, compreender e viver melhor.
Conhecer para meditar. Meditar para sentir. Sentir para transformar. E transformar-se para servir.
Quando o estudo do Evangelho deixa de ser apenas conhecimento intelectual e passa a modificar nossas atitudes, a mediunidade também encontra um campo mais seguro de manifestação. Muitas vezes, a melhor ajuda que podemos oferecer à nossa própria família não está em uma comunicação espiritual, mas na mudança de nossa postura diante dela.
Compreendendo o animismo
Um dos assuntos que exige maior conhecimento e discernimento dentro da prática mediúnica é o animismo.
No capítulo 11 de Vivência Mediúnica, intitulado “Do anímico ao mediúnico”, Manoel Philomeno de Miranda explica que o fenômeno anímico pode apresentar-se de maneiras diferentes. Em uma delas, a própria alma do médium se comunica; em outra, o médium introduz inconscientemente suas próprias ideias na mensagem de que se faz instrumento.
Isso é importante porque nem toda manifestação ocorrida durante uma reunião mediúnica significa necessariamente a presença de um Espírito comunicante.
Allan Kardec aborda a questão em O Livro dos Médiuns, especialmente no item 223, ao considerar a possibilidade de a própria alma do médium comunicar-se. " A alma do médium pode comunicar-se, como a de qualquer outro. Se goza de certo grau de liberdade recobra suas qualidades de espírito". O fenômeno, portanto, não deve ser tratado automaticamente como fraude, mistificação ou erro. O animismo faz parte da complexidade da própria faculdade mediúnica e precisa ser estudado com serenidade.
Manoel Philomeno de Miranda conclui: "Vê-se, portanto, que os mentores não deram qualquer conotação de anormalidade, chegando até a afirmar que o conteúdo de certas comunicações produzidas por médiuns, sem o concurso dos Espíritos, pode ser superior ao de outras, obtidas com a participação deles, a depender do grau de evolução de uns e de outros."
André Luiz oferece um exemplo particularmente esclarecedor em Nos Domínios da Mediunidade, no capítulo 22, “Emersão do passado”. Durante uma reunião mediúnica, uma sensitiva entra em transe sonambúlico e exterioriza, com grande intensidade emocional, uma experiência traumática relacionada a outra existência. Para quem observasse superficialmente, poderia parecer uma comunicação mediúnica. Entretanto, tratava-se da exteriorização de conteúdos pertencentes à própria alma da sensitiva.
O episódio demonstra que uma manifestação anímica também pode revelar sofrimento profundo e necessitar de acolhimento. Não se trata de simplesmente interromper a experiência porque “não é um Espírito”. O trabalhador precisa compreender que existe ali uma alma necessitada de auxílio.
Há ainda situações mistas, nas quais a participação espiritual ocorre, mas o médium não consegue afastar completamente suas próprias ideias, emoções, lembranças, clichês mentais e automatismos. Sua personalidade acaba interferindo na mensagem.
Uma das causas possíveis está na dificuldade de sintonia entre médium e Espírito. Quando existem grandes diferenças vibratórias, a ligação necessária à comunicação pode não acontecer com a naturalidade desejada. O próprio Livro dos Médiuns, no item 223, questões 7 e 8, apresenta elementos importantes para compreender essas interferências.
Por isso, o médium não deve interpretar toda dificuldade como ação de um Espírito inferior. Existem limitações decorrentes do próprio organismo, do estado emocional, do conhecimento insuficiente, da dificuldade de sintonia e até das condições do Espírito que pretende comunicar-se.
A inspiração mediúnica, como sintetiza Manoel Philomeno de Miranda, percorre um caminho delicado: primeiro sentimos, depois conscientizamos e, em seguida, revestimos a percepção de palavras. Nesse percurso, o mundo íntimo do médium participa inevitavelmente da forma pela qual a mensagem será expressa.
O médium também precisa de vigilância
A mediunidade não é uma faculdade que funciona independentemente da vida do médium. Existem interferências que podem ocorrer de maneira intermitente, dificuldades de sintonia e até situações em que a própria mediunidade pode sofrer limitações.
O mau uso da faculdade, a derrocada moral, determinadas condições de saúde e desequilíbrios pessoais podem interferir no exercício mediúnico. Da mesma maneira, a limitação de conhecimentos do médium pode dificultar a interpretação de determinadas comunicações.
É por isso que estudo e reforma íntima não são exigências burocráticas para entrar em uma reunião. São instrumentos de segurança.
Também existe uma responsabilidade ética fundamental: o que acontece em uma reunião mediúnica deve permanecer na reunião.
Relatar para outras pessoas detalhes das comunicações, identificar Espíritos, comentar dramas pessoais dos comunicantes ou transformar experiências mediúnicas em assunto de curiosidade pode estabelecer ligações mentais desnecessárias com os padrões espirituais atendidos. O silêncio, nesse caso, não é omissão. É caridade, disciplina e proteção.
A reunião mediúnica séria não precisa de espectadores, histórias extraordinárias ou demonstrações de poder espiritual. Ela precisa de trabalhadores dispostos a servir sem vaidade.
Um laboratório de fraternidade
Quando compreendemos tudo isso, percebemos que a reunião mediúnica é muito mais do que um momento de intercâmbio entre dois planos da vida.
É uma escola de humildade.
O médium aprende que nem toda percepção é uma comunicação. O esclarecedor aprende que não deve julgar o comunicante. O dirigente aprende que disciplina não significa autoritarismo. Os trabalhadores aprendem a confiar uns nos outros. E todos descobrem, pouco a pouco, que os Espíritos que chegam em sofrimento também são companheiros de jornada.
Os chamados obsessores não são intrusos que simplesmente invadem nossas vidas. São, muitas vezes, sócios de dificuldades, companheiros de deficiências e relações construídas ao longo do tempo, que precisam ser transformadas pela compreensão, pelo perdão e pela renovação moral.
Assim, a reunião mediúnica também funciona como um espelho. Ao atender o sofrimento do outro lado da vida, o médium é convidado a reconhecer suas próprias necessidades de transformação.
É por isso que a responsabilidade mediúnica começa muito antes da comunicação e continua muito depois que a reunião termina.
O verdadeiro médium não é aquele que mais vê, mais ouve ou mais transmite. É aquele que compreende que a faculdade que recebeu não lhe pertence como privilégio: é uma oportunidade de servir.
E, quando o estudo se transforma em consciência, a consciência em reforma íntima e a reforma íntima em serviço, a reunião mediúnica deixa de ser apenas um encontro com os Espíritos. Torna-se um encontro com a própria responsabilidade de ser Espírito.
Leia também: Reunião Mediúnica - Fundamentos, objetivos e cuidados
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo



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