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Vínculos Eternos: os Laços que Atravessam as Reencarnações segundo o Espiritismo

                           

Há pessoas que entram em nossa vida e parecem trazer consigo uma história muito maior do que aquela que conseguimos perceber. Encontramo-nos como pais, filhos, irmãos, companheiros ou amigos, mas, segundo a Doutrina Espírita, esses encontros não começam necessariamente no nascimento nem terminam com a morte. A reencarnação nos mostra que os vínculos verdadeiramente construídos no amor podem atravessar diferentes existências, assumindo, a cada nova experiência, diferentes papéis.

Hoje alguém pode ser nosso filho; amanhã, em outra existência, poderá ser nosso pai. Quem hoje educamos talvez já tenha nos educado em outro tempo. Os papéis mudam, mas aquilo que foi construído no espírito permanece.

A história de Mônica e Agostinho nos oferece uma bela imagem desse amor que sabe esperar.

Mônica, que posteriormente seria reconhecida pela Igreja Católica como Santa Mônica, acompanhou durante anos o filho Agostinho, o Santo Agostinho, em sua trajetória de excessos, paixões e inquietações. Ele buscava respostas para a vida em diferentes caminhos, afastando-se do cristianismo que sua mãe desejava para ele. Mônica, porém, não desistiu.

Mas há algo especialmente bonito em sua história: ela aprendeu a esperar.

Orientada por Santo Ambrósio, diante de sua angústia pela situação do filho, ouviu que continuasse a rezar, pois não seria possível que se perdesse um filho de tantas lágrimas. Mônica não poderia viver a transformação no lugar de Agostinho. Poderia amar, orar, exemplificar e apontar o caminho. O passo decisivo, entretanto, precisaria nascer do próprio filho.

E o momento chegou.

Depois de muitos acontecimentos e de uma profunda crise interior, Agostinho abriu ao acaso um trecho da Carta de Paulo aos Romanos (13:13-14), que o convidava a abandonar a vida de prazeres e excessos e a revestir-se de Cristo. Aquelas palavras o atingiram profundamente. Foi como um caminho de Damasco particular: o despertar que ninguém poderia impor, mas que, finalmente, nasceu dentro dele.

Mônica havia mostrado o mapa. A vida cuidou para que, no momento certo, Agostinho finalmente olhasse para ele.

Talvez seja assim também conosco.

Muitas vezes alguém que nos ama aponta um caminho que, naquele momento, consideramos secundário. Um conselho, uma palavra, um exemplo, uma página do Evangelho. Não damos importância. Seguimos por outras estradas, seduzidos pelas urgências, pelos prazeres, pelas ilusões e pelas conquistas passageiras.

Até que a vida começa a nos ensinar.

As dificuldades, as perdas, as frustrações e determinadas experiências podem funcionar como um despertar. Aquilo que antes parecia desprezível passa a ganhar significado. O Evangelho, antes deixado para depois, começa a responder às perguntas que a própria vida nos impôs.

Foi também nesse sentido que Agostinho pôde olhar para sua mãe com gratidão. Mônica não havia conseguido conduzi-lo pela força; havia conseguido algo muito mais profundo: permanecer ao seu lado, amando e confiando, até que o filho encontrasse por si mesmo o caminho.

Quando ela morreu, Agostinho reconheceu a grandeza daquela presença em sua existência. E ficou célebre a expressão associada à consolação que Mônica recebeu: “Não é possível que se perca um filho de tantas lágrimas.”

Essa história nos conduz ao ensinamento de Jesus: “Honrai vosso pai e vossa mãe.”

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec explica que honrar os pais não significa apenas respeitá-los, mas envolve amor, atenção, cuidado, gratidão e piedade filial. E esse dever também nos faz compreender a responsabilidade daqueles que recebem a tarefa de serem pais.

Porque a maternidade e a paternidade não são apenas acontecimentos biológicos. São experiências espirituais.

Em O Livro dos Espíritos, na questão 207, encontramos um princípio fundamental: “O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito.” A semelhança moral entre pais e filhos não significa que um Espírito seja criado pelo outro. São Espíritos distintos, muitas vezes unidos por afinidade e por compromissos anteriores. E, na questão 208, Kardec registra que os Espíritos dos pais exercem grande influência sobre os filhos, tendo a missão de contribuir para o seu desenvolvimento pela educação.

Que responsabilidade existe nisso!

O que estamos colocando no coração daqueles que nos foram confiados? Que exemplos estamos oferecendo? Que valores estamos ensinando não apenas com palavras, mas com a nossa maneira de viver?

Talvez essa seja uma das formas mais profundas de honrar pai e mãe: compreender que recebemos uns dos outros oportunidades de crescimento.

Nem sempre, porém, encontramos pais que conseguiram cumprir plenamente essa missão. Há pais que falharam, que não souberam amar, que não deram bons exemplos ou que deixaram marcas profundas em seus filhos. A Doutrina Espírita não nos pede que chamemos o erro de acerto, nem que ignoremos as dores que vivemos. Mas nos convida a olhar para além delas. Esses pais, com todas as suas imperfeições, nos deram a vida e, a partir dela, recebemos a oportunidade de continuar nossa jornada. Se permanecermos presos ao negativo, podemos transformar uma experiência difícil em uma companhia dolorosa por toda a existência. O papel do filho também passa pela ressignificação, pelo perdão possível, pela compreensão e, sobretudo, pela decisão de não permitir que aquilo que recebeu de ruim determine o que fará de sua própria vida. Honrar os pais, nesse sentido, não significa aprovar seus erros, mas reverenciar a vida que chegou até nós através deles, acolher o que foi possível receber e deixar seguir aquilo que não nos serve. É permitir que o rio da vida continue fluindo, sem negar suas águas turbulentas, mas sem permanecer eternamente parado em suas margens.

E os vínculos não terminam quando o corpo retorna à Terra.

Em Libertação, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier, encontramos a emocionante história de Matilde e Gregório. Matilde, situada em uma condição espiritual mais elevada, continua ligada ao filho que permanecera durante séculos envolvido no erro. Ela não o abandona. Ao contrário, acompanha-o, espera o momento possível e participa dos esforços destinados à sua recuperação. Quando finalmente ocorre o reencontro, o abraço materno torna-se uma das imagens mais fortes da obra.

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É a imagem dos vínculos eternos.

O amor verdadeiro não desaparece porque alguém desencarnou. Às vezes, aquele que amamos pode não estar conosco nesta existência, mas o vínculo espiritual permanece. Pode haver, do outro lado da vida, alguém que nos acompanha, inspira, ora por nós e aguarda pacientemente o nosso despertar.

Talvez aqueles que hoje nos parecem distantes estejam, na verdade, muito próximos no espírito.

E talvez alguns dos nossos maiores encontros nesta existência sejam reencontros.

Pais e filhos podem ter vindo juntos não apenas para conviver, mas para auxiliar-se mutuamente. O filho recebe educação; o pai também recebe uma oportunidade de transformação. Um ensina, o outro aprende; depois, em outra existência, os papéis podem se inverter.

É por isso que “honrai vosso pai e vossa mãe” também pode ser compreendido como um convite a honrar a missão que recebemos.

Honrar a maternidade e a paternidade é compreender que não geramos apenas corpos: recebemos Espíritos com histórias próprias, necessidades próprias e caminhos próprios. Nossa tarefa é oferecer amor, orientação e exemplo, sem esquecer que ninguém pode despertar pelo outro.

Mônica mostrou o caminho. Agostinho precisou percorrê-lo.

E talvez seja exatamente essa a grande lição dos vínculos eternos: amar alguém não é viver a vida dessa pessoa por ela. É permanecer presente, oferecer luz e confiar que, no tempo certo, ela saberá olhar para o caminho que um dia lhe mostramos.

A vida, às vezes, nos causa dores para que despertemos.

E quando finalmente abrimos os olhos, talvez descubramos que nunca estivemos sozinhos. Havia alguém, encarnado ou desencarnado, torcendo por nós. Alguém que nos amou o suficiente para esperar.

Porque os papéis podem mudar.

As existências podem passar.

Os corpos podem desaparecer.

Mas aquilo que verdadeiramente foi construído no amor permanece.

Que assim seja!

Leia também: Por que nascemos nesta família?

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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