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O Senhor deu... e o Senhor tomou? Uma reflexão sobre Jó, as provas e a visão libertadora do Espiritismo

                             

Há frases que atravessam os séculos porque expressam a dor humana em sua forma mais profunda. Uma delas está no livro de Jó:

"Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá. O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor." (Jó 1:21)

À primeira vista, essa declaração pode sugerir uma resignação absoluta diante da vontade divina. Muitos a interpretam como a aceitação de um Deus que concede e retira bens, saúde, família e felicidade conforme um desígnio insondável. Sob essa ótica, resta apenas suportar o sofrimento em silêncio.

Mas será que essa é a única maneira de compreender as palavras de Jó?

A Doutrina Espírita nos convida a olhar essa passagem sob uma perspectiva muito mais ampla, considerando a imortalidade da alma, a reencarnação, a justiça divina e a liberdade do Espírito. E é justamente essa visão que transforma completamente nossa compreensão do sofrimento.

Deus não impõe sofrimentos arbitrários

Uma das maiores contribuições do Espiritismo para o pensamento religioso é apresentar Deus como soberanamente justo e bom.

Se Deus é infinitamente justo, não pode distribuir dores aleatoriamente.

Se é infinitamente bom, também não pode sentir prazer no sofrimento de seus filhos.

Então surge uma pergunta inevitável: por que pessoas boas sofrem? Por que crianças adoecem? Por que alguns enfrentam perdas tão profundas enquanto outros parecem viver com relativa tranquilidade?

Sem a reencarnação, essas perguntas permanecem extremamente difíceis de responder.

O Espiritismo, porém, amplia o horizonte da existência. Nossa vida não começa no nascimento nem termina na morte. Somos Espíritos imortais em contínuo processo de aperfeiçoamento.

Aquilo que hoje chamamos de "vida" é apenas um capítulo de uma história muito maior.

A escolha das provas antes da reencarnação

Em O Livro dos Espíritos, questão 258 e 259, Allan Kardec pergunta aos Espíritos se somos nós mesmos que escolhemos as provas pelas quais passaremos.

A resposta é afirmativa.

Isso costuma causar surpresa.

Como alguém poderia escolher nascer com limitações físicas? Em uma família difícil? Enfrentar pobreza, doenças ou perdas?

A resposta está na condição espiritual em que nos encontramos antes da encarnação.

Libertos das ilusões da matéria, enxergamos nossa própria história com muito mais clareza. Reconhecemos nossas imperfeições, compreendemos onde fracassamos e percebemos quais experiências serão mais úteis ao nosso progresso.

É semelhante ao estudante que escolhe uma disciplina difícil porque sabe que precisa aprendê-la para crescer.

Durante o curso, porém, ele pode reclamar das provas, desejar desistir e até esquecer por que fez aquela escolha.

Conosco acontece algo parecido.

Ao reencarnar, o véu do esquecimento cobre nossa memória justamente para que possamos viver as experiências com espontaneidade. Esquecemos as razões da escolha, mas não perdemos a finalidade dela.

Por isso, muitas vezes sentimos que determinadas situações parecem "maiores" do que nós. Na realidade, elas fazem parte de um projeto educativo muito mais antigo do que conseguimos lembrar.

As palavras de Jó sob a luz espírita

Quando Jó afirma:

"O Senhor o deu, e o Senhor o tomou."

o Espiritismo não interpreta essa frase como um Deus retirando bens por capricho ou punição.

Na verdade, tudo aquilo que possuímos na Terra é transitório.

Nossa família terrena, nossa saúde, nossos recursos materiais e até nosso próprio corpo físico são empréstimos temporários concedidos pela Providência Divina para nossa evolução.

Nada nos pertence definitivamente.

Somos administradores, nunca proprietários absolutos.

Quando chega o momento de uma perda, Deus não está "tirando" algo que era nosso por direito eterno.

A experiência apenas cumpre seu ciclo.

Sob esse aspecto, a fala de Jó ganha outro significado.

Ela deixa de representar submissão cega e passa a expressar confiança na sabedoria divina.

Jó não compreendia todas as razões de seu sofrimento, mas recusou-se a acreditar que Deus fosse injusto.

O Espiritismo completa esse entendimento mostrando que existe uma história anterior àquela existência e uma continuidade depois dela.

Aquilo que parecia incompreensível passa a integrar uma lei universal de causa, efeito e progresso.

O grande equívoco: o Espiritismo seria conformista?

Recentemente, conversando com um amigo pertencente a outra tradição religiosa, ouvi uma observação interessante.

Ele disse que não gostava do Espiritismo porque lhe parecia uma doutrina conformista.

Segundo sua impressão, o espírita simplesmente aceita tudo dizendo:

"Estou pagando erros do passado."

Essa visão, embora bastante comum, nasce de uma compreensão incompleta da Doutrina Espírita.

Na verdade, o Espiritismo ensina exatamente o contrário.

Aceitar não significa cruzar os braços.

Resignação não é passividade.

Compreender as causas espirituais de uma dificuldade jamais significa desistir de transformá-la.

Aliás, se o objetivo das provas fosse apenas sofrer, elas perderiam completamente seu sentido educativo.

O sofrimento, por si só, não melhora ninguém.

O que transforma o Espírito é a maneira como ele reage diante das dificuldades.

Duas pessoas podem enfrentar exatamente a mesma doença.

Uma torna-se amarga.

Outra desenvolve compaixão, paciência, humildade e fé.

A prova era semelhante.

O resultado espiritual foi completamente diferente.

O futuro nunca está completamente escrito

Talvez um dos ensinamentos mais libertadores do Espiritismo seja justamente este:

Mesmo quando determinadas provas foram escolhidas antes da encarnação, elas não constituem um destino imutável.

Nossa liberdade continua existindo.

Cada decisão altera o rumo da caminhada.

Em diversas obras da Codificação e da literatura espírita compreendemos que Deus leva em consideração nossos esforços sinceros.

Quando demonstramos arrependimento verdadeiro, reparação do mal praticado e transformação moral, a Providência Divina pode suavizar determinadas experiências.

Não porque Deus muda suas leis.

Mas porque nós mudamos.

É semelhante ao aluno que inicialmente precisava repetir todo um semestre.

Entretanto, dedicando-se intensamente, estudando além do esperado e demonstrando domínio da matéria, recebe uma nova oportunidade.

O objetivo nunca foi castigá-lo.

Sempre foi ensiná-lo.

Assim também ocorre conosco.

As chamadas "moratórias espirituais" representam demonstrações da misericórdia divina.

A Justiça de Deus nunca está separada do Amor.

Não existe um tribunal celeste interessado em punir eternamente.

Existe um Pai interessado em educar seus filhos.

A lei de causa e efeito não é uma sentença

Outro equívoco frequente consiste em imaginar a lei de causa e efeito como um mecanismo frio de punição.

Como se cada erro cometido gerasse inevitavelmente um sofrimento equivalente.

Mas essa não é a visão espírita.

A lei de causa e efeito é profundamente educativa.

Ela procura restaurar o equilíbrio, desenvolver consciência e favorecer o crescimento moral.

Quando alguém aprende verdadeiramente uma lição, muitas vezes não há mais necessidade de determinadas experiências dolorosas.

A finalidade foi alcançada.

Jesus deixou isso claro diversas vezes ao valorizar o arrependimento sincero, a renovação interior e o amor acima da punição.

A misericórdia nunca anulou a justiça.

Ela a completou.

Somos coautores do nosso destino

Talvez seja esse um dos aspectos mais belos do Espiritismo.

Não somos marionetes do destino.

Também não somos vítimas indefesas do passado.

Muito menos estamos condenados por erros antigos.

Somos Espíritos em construção.

O passado explica.

Mas não aprisiona.

O presente transforma.

E o futuro permanece aberto.

Cada gesto de amor modifica nossa realidade espiritual.

Cada perdão rompe antigas correntes.

Cada ato de caridade altera caminhos que pareciam inevitáveis.

Cada esforço sincero aproxima novas oportunidades.

É por isso que Emmanuel afirma, em diversas mensagens, que ninguém pode voltar atrás para refazer o passado, mas todos podem recomeçar agora e construir um futuro diferente.

A verdadeira resignação

No Espiritismo, resignação nunca significou acomodação.

Significa serenidade para aceitar aquilo que hoje não podemos modificar, ao mesmo tempo em que empregamos todas as nossas forças para transformar aquilo que depende de nós.

É a resignação ativa.

Aquela que ora, trabalha, aprende, recomeça e persevera.

Ela não diz:

"Não há nada a fazer."

Ela afirma:

"Enquanto não posso mudar esta circunstância, posso mudar a mim mesmo."

E quando o Espírito muda, frequentemente as próprias circunstâncias começam a mudar também.

Uma doutrina que consola porque esclarece

Talvez seja justamente essa a beleza do Espiritismo.

Ele não elimina todas as dores da existência.

Mas retira delas o desespero.

Não promete uma vida sem dificuldades.

Promete uma vida com sentido.

Não oferece privilégios espirituais.

Oferece responsabilidade e esperança.

Ao compreender que somos Espíritos imortais, percebemos que nenhuma dor é eterna, nenhuma queda é definitiva e nenhum sofrimento existe sem finalidade.

Descobrimos que Deus não deseja nossa punição, mas nosso aperfeiçoamento.

Que a justiça divina jamais está separada da misericórdia.

Que as provas podem ser vencidas, abreviadas ou transformadas pelo amor, pelo arrependimento sincero e pelo esforço contínuo no bem.

Assim, as palavras de Jó deixam de ser apenas um retrato da resignação diante da perda e tornam-se um convite à confiança na Providência Divina.

Confiar, porém, não é desistir de viver.

É caminhar sabendo que Deus nunca nos abandona, que sempre respeita nosso livre-arbítrio e que, a cada nova existência, oferece oportunidades para reescrevermos nossa própria história.

Essa é, talvez, uma das mensagens mais libertadoras da Doutrina Espírita: não estamos presos ao passado, nem condenados pelo destino. Somos filhos de Deus, Espíritos imortais em aprendizado, chamados a cooperar com a própria transformação. As provas não são correntes que nos imobilizam, mas degraus que podem nos elevar. E quanto mais nos esforçamos por viver o Evangelho, mais a misericórdia divina encontra espaço para agir em nossa vida, porque a justiça de Deus não deseja perpetuar a dor, e sim conduzir cada um de nós, passo a passo, à plenitude do amor.

É justamente isso que torna a Doutrina Espírita tão libertadora. Ela não nos apresenta um destino imutável do qual não podemos escapar, nem um Deus que pune para satisfazer Sua justiça. Mostra-nos um Pai que educa, que respeita nosso livre-arbítrio e que nunca fecha as portas do recomeço. O passado pode explicar muitas das nossas lutas, mas jamais determina o nosso futuro. Enquanto houver vontade sincera de melhorar, sempre haverá um novo caminho, uma nova oportunidade e uma nova esperança. Porque, para Deus, nenhum de Seus filhos está condenado a sofrer para sempre; todos estão destinados, um dia, à plenitude do bem e da felicidade.

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                                                     A Escolha das Provas

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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