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Jesus Anda Sobre as Águas: O Verdadeiro Significado Segundo o Espiritismo

A oração, a confiança em Deus e a lição de Pedro sobre a fé em Mateus 14:22-36.

O episódio de Jesus andando sobre as águas, narrado no Evangelho de Mateus (14:22-36), está entre os mais conhecidos do Novo Testamento. Entretanto, sua riqueza vai muito além da narrativa do prodígio. À luz da Doutrina Espírita, encontramos nesse acontecimento profundos ensinamentos sobre a oração, a confiança em Deus, a força da fé e o amparo espiritual que jamais falta aos que perseveram. O Livro O Evangelho dos Humildes, de Eliseu Rigonatti, oferece valiosas reflexões que ajudam a compreender esse episódio não apenas como um fato extraordinário, mas como uma verdadeira lição para todos aqueles que enfrentam as tempestades da existência.

Antes mesmo do fenômeno da caminhada sobre as águas, o Evangelho registra que Jesus despediu a multidão, enviou os discípulos à frente e subiu sozinho ao monte para orar. Esse detalhe, aparentemente simples, revela um dos mais belos ensinamentos do Cristo. Jesus não buscava templos majestosos nem lugares considerados sagrados para falar com Deus. Seu templo era a própria natureza. O monte silencioso tornava-se o ambiente ideal para elevar o pensamento ao Pai.

Esse comportamento ensina que Deus não está limitado a edifícios religiosos, altares ou cerimônias exteriores. Sua presença envolve todo o Universo. Podemos orar em qualquer lugar: no lar, no trabalho, durante uma caminhada, em um hospital ou mesmo em meio às maiores dificuldades da vida. A verdadeira oração nasce do coração.

Ao mesmo tempo, Rigonatti recorda que existem momentos em que o recolhimento é particularmente importante. Quando buscamos um ambiente tranquilo, longe das distrações e do tumulto, favorecemos a meditação e a concentração. O silêncio exterior auxilia o silêncio interior. Nessas ocasiões, recompomos nossas energias fluídico-espirituais, fortalecemos a mente e renovamos nossas forças para enfrentar os desafios da vida material.

Isso não significa que a oração coletiva seja menos valiosa. Muito pelo contrário. A reunião sincera de vários corações produz poderosa corrente de pensamentos elevados, favorecendo o amparo espiritual. Entretanto, o recolhimento individual continua sendo indispensável para aquele que deseja aprofundar seu diálogo íntimo com Deus.

Após esse momento de oração, Jesus dirige-se ao encontro dos discípulos caminhando sobre as águas. Para muitos, trata-se simplesmente de um milagre destinado a demonstrar sua natureza divina. Sob a ótica espírita, porém, conforme explica Eliseu Rigonatti, estamos diante de um fenômeno pertencente à categoria dos fenômenos físicos.

A Doutrina Espírita ensina que as leis divinas são imutáveis. Não existem milagres no sentido de acontecimentos que violem essas leis. Existem, sim, fenômenos cujas causas ainda escapam ao conhecimento comum. Jesus, Espírito puro, possuía domínio absoluto sobre os fluidos espirituais e sobre as leis que regem a matéria. Seu elevado grau evolutivo permitia-lhe realizar fenômenos que ainda hoje surpreendem a humanidade.

A caminhada sobre as águas, portanto, não representa uma suspensão das leis naturais, mas a manifestação de leis superiores, ainda pouco compreendidas pela ciência humana. Os fenômenos de efeitos físicos estudados pelo Espiritismo demonstram que a matéria é muito mais plástica e suscetível à ação do Espírito do que geralmente imaginamos. Em Jesus, esse domínio atingia sua expressão máxima.

Entretanto, o verdadeiro centro da narrativa não está na levitação do Cristo, mas na experiência vivida por Pedro.

Ao ver Jesus aproximando-se sobre as águas, Pedro pede autorização para também ir ao seu encontro. Enquanto conserva a confiança, caminha firmemente sobre o mar revolto. Porém, quando desvia sua atenção do Mestre, observa a violência do vento e das ondas e permite que o medo penetre em seu coração, começa imediatamente a afundar.

Nesse instante encontramos uma das maiores lições espirituais de todo o Evangelho.

O problema de Pedro não foi a força das ondas.

Também não foi a intensidade do vento.

Seu fracasso começou exatamente quando surgiu a dúvida.

Enquanto sua fé permanecia viva, havia sustentação espiritual. Quando permitiu que a incerteza ocupasse seu íntimo, perdeu o equilíbrio necessário para manter-se firme.

Essa é uma imagem extraordinariamente atual.

A barca sacudida pelas ondas representa cada um de nós durante as provas da existência. Todos enfrentamos momentos em que os ventos parecem contrários: enfermidades, perdas afetivas, dificuldades financeiras, decepções familiares, solidão, perseguições, crises emocionais ou conflitos íntimos.

Nessas ocasiões, nossa primeira reação costuma ser semelhante à de Pedro. Enquanto tudo está bem, acreditamos facilmente na Providência Divina. Mas quando a tempestade aumenta, surgem perguntas inquietantes: "Será que Deus me abandonou?", "Será que minha oração não foi ouvida?", "Será que não há solução para meu problema?"

É justamente nesse instante que nasce a dúvida.

E todas as vezes em que a dúvida se instala em nosso íntimo, abrimos as portas para a derrota. A dúvida enfraquece nossas forças morais, diminui nossa resistência espiritual e favorece o desânimo. Pouco a pouco, ela pode transformar-se em desesperança.

Por isso Jesus imediatamente estende a mão a Pedro e pergunta:

"Homem de pequena fé, por que duvidaste?"

Observe-se que Jesus não censura Pedro por ter desejado caminhar sobre as águas. Também não o repreende por sentir medo. A advertência dirige-se exclusivamente à perda da confiança.

A verdadeira fé não consiste em acreditar que nunca enfrentaremos dificuldades. Consiste na certeza de que Deus jamais nos abandona durante elas.

Nem sempre o auxílio divino chega da forma que imaginamos. Muitas vezes esperamos soluções imediatas, enquanto Deus trabalha silenciosamente através do tempo, das circunstâncias e das pessoas que coloca em nosso caminho. Em outras ocasiões, o socorro manifesta-se por meios inesperados: uma palavra amiga, uma inspiração, um tratamento adequado, uma oportunidade de recomeço, um encontro providencial ou uma força interior que sequer imaginávamos possuir.

Quem conserva a fé permanece de pé mesmo quando tudo parece desmoronar ao redor.

A fé funciona como uma luz que ilumina o caminho durante a noite escura das provações. Ela impede que caiamos em dois dos maiores abismos da vida espiritual: a dúvida e o desespero.

Isso não significa passividade. A confiança em Deus jamais dispensa o esforço pessoal. Pedro precisou caminhar. Nós também precisamos agir, trabalhar, estudar, lutar e perseverar. A diferença está em fazê-lo sem perder a certeza de que jamais caminhamos sozinhos.

Em Mateus 14:34-36 apresentam-se numerosas curas realizadas por Jesus. Bastava que os enfermos tocassem a orla de suas vestes para serem restabelecidos.

Mais uma vez, o Espiritismo oferece valiosa compreensão desse acontecimento. Jesus irradiava continuamente fluidos espirituais de elevadíssima pureza. Sua perfeita comunhão com Deus fazia dele um inesgotável foco de energias curativas. Contudo, não bastava apenas sua vontade. Era igualmente necessário que o enfermo apresentasse receptividade espiritual.

A fé funciona como poderosa força de atração. Ela estabelece sintonia entre aquele que oferece o auxílio espiritual e aquele que o recebe. Quando a confiança do doente encontrava a vontade amorosa de Jesus, os fluidos curativos encontravam condições favoráveis para produzir seus efeitos.

Não era um passe de mágica.

Era a perfeita conjugação entre a ação espiritual do Cristo e a abertura íntima daquele que desejava ser curado.

A Doutrina Espírita ensina que esse mecanismo continua atuando em nossos dias. Evidentemente, nenhum médium possui a grandeza espiritual de Jesus. Entretanto, os bons Espíritos continuam trabalhando em favor da humanidade. Nas reuniões de assistência espiritual, nos passes, nas irradiações e nas preces sinceras, os benfeitores espirituais distribuem recursos fluídicos conforme o merecimento e as necessidades de cada pessoa.

Os médiuns são apenas instrumentos desse trabalho. A verdadeira cura procede sempre de Deus, por intermédio dos Espíritos superiores. Quando o sofredor cultiva um pouco de fé, esperança e confiança, cria em si mesmo condições mais favoráveis para receber o auxílio espiritual. Em alguns casos, ocorrem melhoras físicas; em outros, mais importantes ainda, verificam-se profundas transformações morais, emocionais e espirituais.

Nem toda enfermidade desaparecerá imediatamente, porque muitas vezes ela desempenha importante função educativa no processo evolutivo do Espírito. Contudo, toda criatura que se aproxima sinceramente de Deus jamais deixa de receber algum benefício.

Assim, o episódio de Jesus andando sobre o mar permanece extremamente atual. Ensina-nos a buscar momentos de recolhimento e oração, fortalece nossa compreensão das leis espirituais que regem o Universo, convida-nos a vencer a dúvida por meio da confiança e recorda que a fé continua sendo o grande canal pelo qual o auxílio divino alcança os corações humanos.

Quando as tempestades da vida parecerem insuportáveis e as ondas do sofrimento ameaçarem submergir nossa esperança, lembremo-nos da mão estendida do Cristo. Ela continua presente, invisível, mas atuante, sustentando todos aqueles que, mesmo entre lágrimas e dificuldades, continuam acreditando que Deus jamais abandona seus filhos. Essa confiança é a fé viva, capaz de nos fazer atravessar os mares revoltos da existência até alcançarmos, enfim, o porto seguro da paz espiritual.

Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo

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