Excesso de Assistencialismo: até quando ajudar?
O excesso de assistencialismo nasce, muitas vezes, de boas intenções. Queremos evitar que o outro sofra, queremos proteger, poupar quedas, encurtar caminhos. Mas a vida, sábia e pedagógica, ensina que existem experiências que ninguém pode viver por nós. Quando carregamos alguém por tempo demais, impedimos que essa pessoa descubra a própria força. E quando sustentamos um peso que não é nosso, começamos a perder a energia que precisamos para cumprir o nosso próprio caminho.
A ajuda exagerada pode atrasar processos que o outro precisa viver. Quando fazemos pelo outro aquilo que ele já pode — e precisa — fazer sozinho, criamos dependência. Alimentamos um ciclo vicioso onde um não cresce e o outro se esgota. Aquele que recebe passa a se apoiar, a esperar, a não se movimentar. E aquele que doa passa a se cansar, a se frustrar e, muitas vezes, a adoecer emocionalmente.
Isso se manifesta em diferentes níveis da vida. Na assistência material, por exemplo, ao ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade com cestas básicas, medicamentos e recursos essenciais, estamos lidando com uma necessidade real e urgente. Há quem precise — e muito — desse apoio para sobreviver. Mas também existem situações em que a ajuda contínua, sem critérios e sem acompanhamento, acaba sendo utilizada de forma abusiva. Algumas pessoas recorrem a várias instituições ao mesmo tempo, acumulam benefícios e, aos poucos, perdem o estímulo para buscar autonomia.
Essa mesma lógica se repete dentro dos lares. Quantas vezes, na tentativa de agradar ou evitar conflitos, acabamos fazendo tudo por um familiar, por um esposo ou esposa? Sustentamos financeiramente, resolvemos problemas, tomamos decisões, assumimos responsabilidades que não são nossas. Aparentemente, isso parece amor. Mas, na prática, pode ser uma interferência direta no caminho evolutivo do outro. Amar não é substituir; é apoiar sem anular, é caminhar junto sem carregar no colo quem já pode andar.
As obras de caridade enfrentam um dos maiores desafios nesse contexto. Como discernir quem realmente precisa? Como ajudar sem estimular a acomodação? Como lidar com a desconfiança gerada pelos abusos, inclusive quando benefícios sociais são utilizados como moeda política, criando dependência e não emancipação? Essas questões fazem com que muitas pessoas deixem de ajudar, não por falta de compaixão, mas por medo de alimentar injustiças ou ilusões.
A resposta talvez esteja no equilíbrio. A verdadeira caridade não é apenas dar; é educar, orientar, fortalecer. É oferecer o pão hoje, mas também ensinar a plantar amanhã. É socorrer na dor imediata, sem perder de vista a autonomia futura. A ajuda lúcida observa, acompanha e, quando necessário, sabe recuar. Porque, às vezes, a maior bondade é permitir que o outro caminhe sozinho.
Que possamos compreender que ajudar não é salvar o outro de todas as quedas, mas estar presente para quando ele precisar se levantar. Que a caridade seja ponte, e não muleta; estímulo, e não prisão.
Trago um trecho de uma prece do Espírito Miramez contida no livro "Iniciação - Viagem Astral " de João Nunes Maia pelo Espírito Lancellin, que cabe bem nesta temática:
"... Senhor, ajuda-nos a ajudar, sem que a ajuda se torne conivência;
ajuda-nos a amparar, sem que o amparo incentive a preguiça;
ajuda-nos a contribuir, sem que a contribuição nos leve ao fanatismo.
Ensina-nos a caridade que liberta, fortalece e educa,
para que possamos servir com amor, sabedoria e discernimento..."
Que essa reflexão nos ajude a seguir fazendo o bem, sem endurecer o coração e sem fechar os olhos para a realidade. Que aprendamos a ajudar com responsabilidade, a servir com equilíbrio e a amar com maturidade. Que nossa caridade seja luz no caminho do outro, mas nunca sombra que o impeça de caminhar. E que, mesmo diante das dúvidas e desafios, nunca nos falte coragem para continuar auxiliando — com consciência, humildade e confiança de que o verdadeiro amor sempre educa, fortalece e liberta.
Alexandre Cunha - O Homem no Mundo



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