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Reflexões e estudos da Doutrina Espírita, baseado nas obras de Allan Kardec
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Amar Sem Esperar Retorno: A Difícil e Libertadora Lição do Cristo
Entre as figuras mais humanas e, ao mesmo tempo, mais profundas do Evangelho, Tomé ocupa um lugar especial. Não é o discípulo da negação ruidosa, nem do entusiasmo imediato. É o homem das inquietações silenciosas, das perguntas que nascem quando a fé ainda não encontrou repouso no coração. Em Roteiro de Libertação, psicografado por Divaldo Franco e colaboração de diversos Espíritos, no capítulo “Dúvidas e Intrigas”, ditado pelo Espírito Amélia Rodrigues, somos convidados a acompanhar esse drama íntimo que atravessa o aprendiz sincero, mas ainda vulnerável às aparências, às intrigas e às próprias expectativas frustradas.
O texto nos recorda que “os homens são os seus equívocos e aparências”, capazes de dissimular uns com os outros enquanto ocultam as fragilidades que carregam. Essa observação é profundamente atual. Vivemos cercados por máscaras sociais, por imagens cuidadosamente construídas, enquanto o coração permanece carente de autenticidade. Nesse terreno instável, “o cerco do mal sempre colhe os que se afinam com o erro”, não como punição divina, mas como consequência natural das escolhas interiores. Onde a alma se desequilibra, ali encontra ressonância a perturbação.
À medida que Jesus realizava êxitos nos diversos misteres da vida — curando, esclarecendo, consolando —, multiplicavam-se também as dificuldades. A inveja, como nos adverte Amélia Rodrigues, sabe gerar intrigas; o despeito domina os recursos da discórdia, envolvendo aqueles que caem em suas teias. As discursões prosseguiam em torno do Mestre, não porque Ele errasse, mas porque a luz sempre incomoda as sombras que se recusam a dissipar-se.
É nesse contexto que Tomé se abre com Jesus. Apesar da alegria que lhe preenchia os sentimentos, uma inquietação estranha entristecia sua alma. Ele ama, confia, espera e, ainda assim, não encontra paz. Quantos de nós não reconhecemos essa experiência? Acreditamos amar, mas esperamos ser amados; confiamos, mas desejamos garantias; nutrimos esperança, mas aguardamos sinais externos que nos confirmem o valor do caminho.
A resposta de Jesus é de uma profundidade desarmante: “Só o amor em plenitude apazigua.” Quando o amor apenas se aproxima da alma, provoca alarido e excitação; quando, porém, a domina, estabelece a calma. O amor verdadeiro exige doação total. Sem essa entrega, gera inquietação, incerteza e amargura. Amar pela metade é permanecer em conflito consigo mesmo.
Tomé insiste: ama, mas não se sente amado; confia, mas não repousa; possui esperança, mas não se renova. Jesus então o adverte com firmeza e ternura: a dúvida sistemática é geratriz de muitos males no homem. E apresenta exemplos simples, porém sublimes: o filete de água não questiona se deve avançar — avança e se transforma num córrego; a semente não teme romper-se, estoura e se transforma em planta; o dia não indaga se vencerá a noite, nasce e a dissipa. Eles não perguntam, agem; não temem, avançam; nada pedem, doam-se.
Aqui se encontra a essência da lição: enquanto esperamos que a vitória se manifeste pelas circunstâncias externas ou que o amor nos seja oferecido como recompensa, ainda não iniciamos a verdadeira batalha do espírito, que é amar e perseverar no bem, independentemente das reações do mundo. O amor que calcula retorno ainda é negociação; o amor que exige reconhecimento ainda é dependência. O amor que liberta é aquele que se oferece sem condições.
Quando Tomé se sente num plano secundário, sem os entusiasmos de João, sem os aplausos de Pedro, Jesus lhe apresenta um alerta decisivo: a intriga é serpente cruel, que esmaga com seus anéis e mata com sua picada venenosa. Comparar-se, alimentar ressentimentos, supor rejeições onde há apenas processos diferentes de amadurecimento é permitir que a intriga encontre abrigo no coração.
Então, o Mestre pronuncia a síntese do Evangelho vivido:
“O Filho do homem nada pede: ama e dá-se. O candidato ao Reino de Deus crê e ama, serve e ama, sofre e ama, não acusando, nem invejando nunca.”
Não se trata de passividade, mas de maturidade espiritual. Amar, servir e sofrer sem acusar é compromisso de honra com a própria felicidade e com a felicidade do próximo.
Essa mesma temática ressurge, com delicadeza comovente, em Luz Acima, de Chico Xavier, pelo Espírito Irmão X, no capítulo 3. Ali encontramos outro aprendiz, marcado por feridas na alma. Desejoso do bem, era visado pelo mal; sincero, enfrentava a falsidade; oferecendo pão, recebia pedradas; acendendo luz, provocava perseguições das trevas. Cercado de calúnias, sarcasmos e incompreensões, aprende, não sem lágrimas interiores, que mais difícil do que conquistar o mundo é dominar a si mesmo.
Com o tempo, esse discípulo se transforma. Aprende a calar para ouvir, a compreender sem humilhar, a ajudar sem exigir recompensa. Já não sente necessidade de perdoar, porque aprendeu a amar. Ora pelos adversários, não os vendo como maus, mas como ignorantes ainda incapazes de perceber a verdade. Socorre os ingratos, entendendo que o fruto verde não pode oferecer o sabor daquele que amadurece no tempo certo.
Quando o Senhor o encontra nesse estado, estreita-o nos braços, de coração a coração, e proclama bem-aventurado o servo fiel que busca a vontade divina. Desde então, passa a habitar com ele para sempre.
Permitir que Jesus habite em nós é uma aspiração que se constrói aos poucos, no esforço diário de transformação íntima. Esse caminho não é simples, pois ainda somos humanos, marcados por imperfeições, emoções instáveis e aprendizados constantes. Amar como o Cristo, servir sem esperar retorno e compreender sem acusar são ideais elevados, que muitas vezes nos parecem distantes, mas que indicam a direção do crescimento espiritual.
O Evangelho, porém, não nos cobra perfeição imediata, e sim disposição para caminhar. Jesus conhece nossas fragilidades, sabe de nossas quedas, mágoas e expectativas frustradas, e ainda assim não nos exclui do seu amor. Errar, duvidar e sofrer não nos afastam de Deus; revelam apenas que estamos em processo de amadurecimento, assim como Tomé e tantos outros aprendizes do bem.
Cada pequeno esforço sincero tem valor. Toda vez que escolhemos o bem, mesmo com limitações, avançamos em direção à luz e diminuímos o sofrimento interior. A verdadeira paz não nasce da perfeição, mas da fidelidade ao bem possível hoje.
Caminhar com Jesus é aprender, pouco a pouco, a amar sem limites, servir sem aplausos e seguir adiante apesar das dúvidas, confiando que cada passo honesto já abre espaço para que o amor divino habite em nós com mais plenitude.
Que assim seja. Sigamos caminhando! 💜
Por Alexandre Cunha - O Homem no Mundo
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